Ouro atinge patamar histórico com incertezas da política externa de Trump
As incertezas geradas pela política externa do presidente Donald Trump voltaram a exercer forte pressão sobre o preço do ouro no mercado internacional. Pela primeira vez na história, a cotação ultrapassou a marca significativa de US$ 5,1 mil por onça, refletindo a turbulência geopolítica atual.
Diversificação como estratégia de proteção
Em meio a um cenário de poucas certezas nas mesas de operações, especialistas reforçam a vantagem de diversificar os investimentos. "É uma forma mais fácil de você se proteger", afirma Fabio Zaclis, gestor de fundos multimercados na Daycoval Asset. "Você tem um ativo que, quando a geopolítica estressa, anda muito bem. Quando o juro cai, ele anda muito bem. Então, ele cria um papel na composição de portfólio, com um tipo de correlação que hoje está difícil de achar".
Trajetória ascendente desde a posse de Trump
Essa mais recente corrida pelo ouro teve início com a guerra entre Rússia e Ucrânia e ganhou impulso acelerado a partir da posse de Donald Trump. "Está havendo um movimento de saída de ativos denominados em dólar, de venda da moeda americana e de muita preocupação em relação para onde vão os Estados Unidos e para onde vai o resto do mundo", explica o economista Eduardo Giannetti.
Quando Trump assumiu o cargo, o ouro era negociado a aproximadamente US$ 2.730 por onça – medida padrão equivalente a 31 gramas. No entanto, com o aumento das tensões entre Estados Unidos e Europa devido à questão da Groenlândia, a disputa comercial com a China e outras crises geopolíticas e militares, o metal precioso vem renovando seus máximos históricos.
Nesta segunda-feira (26), o ouro chegou a ultrapassar a barreira psicológica dos US$ 5,1 mil, fechando o dia a US$ 5.082. A prata também acompanhou essa valorização expressiva, saltando de cerca de US$ 30 por onça na posse de Trump para US$ 115 por onça na mesma data.
Dólar perde força e Brasil ganha destaque
No mesmo período, o dólar apresentou perda de força significativa. No Brasil, a moeda norte-americana recuou de R$ 6 para R$ 5,27, evidenciando uma busca por alternativas aos ativos americanos.
Essa movimentação não só valoriza o ouro e a prata, mas também gera uma onda de investimentos em direção a mercados emergentes. Segundo analistas, isso coloca o Brasil em uma posição estratégica bastante favorável.
Em menos de um mês, o saldo de capital estrangeiro no país já supera a marca de US$ 15,7 bilhões, de acordo com dados da B3. Esse volume representa quase a metade de todo o capital registrado ao longo de 2025.
Condições para ampliar os fluxos de investimento
Para Fabio Zaclis, o Brasil tem potencial para atrair volumes ainda maiores de recursos estrangeiros. "Se o Brasil conseguir fazer uma mudança de vários temas econômicos que acho que já são conhecidos aqui como a questão fiscal, questões institucionais de conflitos de poderes, e ter uma institucionalidade que tem uma clareza para o investidor estrangeiro de segurança no investimento, de melhoria marginal de política econômica, esse fluxo poderia ser ainda muito maior como a gente já vê em alguns momentos".
Eduardo Giannetti complementa destacando a necessidade de investimentos em infraestrutura. "Nós temos que aumentar o investimento em infraestrutura. Nosso sistema portuário está muito atrasado, ferrovias, nossas hidrovias. Nós temos que fazer um trabalho de melhoria consistente desse arcabouço tanto de infraestrutura capital físico, quanto de segurança jurídica para investimento de longos prazos para que realmente esse momento - que é favorável ao Brasil - se concretize e nos permita recuperar o dinamismo que nós perdemos há muito tempo".
O cenário atual, portanto, combina incertezas geopolíticas globais com oportunidades emergentes para o Brasil, desde que o país avance em reformas estruturais e em melhorias no ambiente de negócios.