Dólar despenca a R$ 5,20 e Ibovespa bate recorde histórico em dia de otimismo
Dólar cai a R$ 5,20 e Bolsa atinge novo recorde histórico

O mercado financeiro brasileiro viveu uma sessão de forte otimismo nesta terça-feira (27), com o dólar apresentando uma queda expressiva e a Bolsa de Valores atingindo um novo recorde histórico. A moeda norte-americana fechou cotada a R$ 5,2067, registrando uma desvalorização de 1,38% em relação ao dia anterior. Esse é o menor patamar desde 28 de maio de 2024, quando encerrou o dia a R$ 5,160.

Contexto global e movimentação na Bolsa

A desvalorização do dólar foi um movimento global, refletido na queda de 0,86% do índice DXY, que compara a moeda a uma cesta de outras seis divisas fortes. O indicador fechou a 96,21 pontos, alcançando seu menor nível desde 2022. Paralelamente, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, fechou em disparada de 1,79%, atingindo 181.919 pontos. Durante o pregão, o índice bateu as marcas de 181 mil, 182 mil e 183 mil pontos pela primeira vez, com pico diário de 183.359 pontos.

Fatores por trás da valorização

O movimento de alta foi impulsionado por uma confluência de fatores que intensificaram o interesse de investidores por ativos brasileiros. Dados da B3 revelam que mais de R$ 17,7 bilhões já foram aportados no país por investidores estrangeiros desde o início de janeiro até a sexta-feira (23), representando mais de 60% de todo o volume alocado por essa categoria no último ano.

Um dos estopins para a valorização do real e da Bolsa foi a divulgação do IPCA-15 de janeiro, considerado uma prévia da inflação oficial. O índice avançou 0,2% na base mensal, ligeiramente abaixo da expectativa de 0,22% apurada pela Bloomberg. No acumulado de 12 meses, porém, acelerou de 4,41% em dezembro para 4,5% em janeiro, atingindo exatamente o teto da meta perseguida pelo Banco Central.

Expectativas para a política monetária

A divulgação ocorre na véspera da primeira decisão de juros do Copom em 2026, em uma data conhecida como superquarta pelos mercados, que também trará a decisão do Federal Reserve (Fed) norte-americano. A previsão dos agentes é de manutenção da Selic nos atuais 15% ao ano, maior patamar em quase duas décadas.

No entanto, o IPCA-15 abriu portas para que o colegiado afrouxe a linguagem e indique o início do ciclo de cortes para a próxima reunião, em março. Para a decisão de amanhã, o resultado de hoje é de pouca relevância, afirma André Valério, economista sênior do Inter. Mas esperamos que o comitê faça ajustes no comunicado para refletir a possibilidade do início do ciclo de cortes na reunião de março.

Impactos no longo prazo

A leitura leva em conta a tendência de desinflação no longo prazo, resultado da valorização do real ante o dólar e da queda recente nos preços de alimentos. A redução dos preços da gasolina pela Petrobras também deve empurrar o índice para baixo neste primeiro trimestre, conforme análise de Valério.

Segundo o boletim Focus desta semana, especialistas projetam um corte de 0,5 ponto percentual em março como o pontapé inicial do ciclo de afrouxamento monetário. A Selic deve encerrar 2026 em 12,25%, com o IPCA em 4%. O dado aumentou a confiança de que a política monetária restritiva está produzindo efeitos mais consistentes sobre os preços, diz João Abdouni, analista da Levante Inside Corp.

Bolsa e cenário internacional

Para a Bolsa, juros mais baixos tendem a ser uma boa notícia, pois ao reduzir o atrativo da renda fixa, estimulam investidores a buscar retornos mais altos em ativos de risco. Dados da XP indicam que os últimos oito ciclos recentes de afrouxamento monetário levaram o Ibovespa a subir 39,2%. O mercado ainda vê espaço para a Bolsa continuar subindo ao longo do ano, mesmo com previsão de volatilidade devido às eleições presidenciais de outubro.

O cenário se soma à estratégia de diversificação para ativos de mercados menos expostos às tensões geopolíticas e econômicas criadas pelo governo de Donald Trump. A queda do dólar hoje é uma combinação de maior apetite a risco no exterior e uma rotação global fora dos EUA, afirma João Duarte, especialista em câmbio da One Investimentos. O Ibovespa está subindo mais de 2%, o que aponta para muito capital entrando no país.

Tensões no Federal Reserve

O ambiente de tensão também cerca a decisão de juros do Fed nesta superquarta. O consenso de mercado aponta para uma manutenção da taxa na banda de 3,5% e 3,75%, mas os ataques de Trump à independência do banco central preocupam analistas. Caso a manutenção se concretize, a decisão vai na contramão do que o republicano tem pregado desde que assumiu o cargo: a redução brusca da taxa para 1,5%.

O contexto é considerado crítico, com Jerome Powell, presidente do Fed, se tornando alvo de uma investigação federal relacionada a uma reforma da sede da instituição. Embora haja pouca dúvida sobre o resultado da reunião, as expectativas têm aumentado de que a retórica será agressiva devido a fortes dados econômicos e em resposta aos ataques de Trump à autonomia do Fed, diz Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury.

Conforme a escolha pelo novo presidente do Fed se avizinha – o mandato de Powell termina em maio –, o mercado teme que Trump opte por um chairman que responda às suas demandas, e não aos dados econômicos, aumentando a incerteza no cenário internacional.