Dólar fecha no menor valor desde maio de 2024, impulsionado por juros altos e entrada de capital estrangeiro
Dólar atinge menor valor desde maio de 2024 com queda sustentada

Dólar comercial atinge menor patamar desde maio de 2024 com trajetória de queda em 2026

Após alcançar a marca de R$ 6,20 no final de 2024, o dólar comercial iniciou o ano de 2026 em uma trajetória consistente de desvalorização, retornando a níveis operacionais semelhantes aos registrados em maio daquele ano. Esse movimento significativo é resultado de uma combinação complexa de fatores, cujos reflexos já começam a se manifestar de maneira tangível no consumo doméstico, nos índices inflacionários e nas decisões estratégicas de investimento tanto no Brasil quanto no exterior.

Cenário internacional e perda de protagonismo do dólar como porto seguro

No panorama global, a moeda americana vem perdendo força progressivamente, impulsionada principalmente pela expectativa de redução nas taxas de juros dos Estados Unidos e pelo aumento das incertezas políticas internas naquele país. Essa conjuntura diminuiu substancialmente a atratividade do dólar como ativo preferencial, estimulando investidores internacionais a buscarem oportunidades alternativas e mais rentáveis fora do mercado norte-americano.

Conforme análise de Otávio Araújo, consultor-sênior da Zero Markets Brasil, essa mudança de paradigma está intrinsecamente ligada à perda gradual do protagonismo do dólar como tradicional "porto seguro" — o ativo mais procurado em períodos de volatilidade e instabilidade econômica. Paralelamente, observa-se um crescimento na disposição global para assumir riscos calculados em busca de retornos financeiros mais elevados.

"Esse ambiente macroeconômico favorece especialmente países emergentes como o Brasil, particularmente quando há uma entrada expressiva de recursos direcionados ao mercado acionário local. Esse fluxo amplia a oferta de dólares no país e exerce uma pressão consistente para baixo sobre as cotações da moeda americana", explica Araújo.

Brasil se destaca como destino atrativo para capital estrangeiro

É precisamente nesse contexto que o Brasil voltou a se destacar como um destino preferencial para o capital estrangeiro. O principal motivador é o elevado diferencial de juros, com a taxa básica da economia brasileira (Selic) situada no maior patamar em quase duas décadas — o que torna o país excepcionalmente atrativo para investidores em busca de retornos superiores.

Trata-se da conhecida estratégia de "carry trade", na qual investidores captam recursos em países com juros historicamente baixos e os aplicam em mercados emergentes que oferecem retornos mais elevados, como é o caso do mercado brasileiro. Uma parte considerável desses recursos tem sido direcionada à Bolsa de Valores brasileira (B3), que passou a renovar recordes consecutivos e superou, pela primeira vez em sua história, a marca simbólica dos 180 mil pontos.

Esse movimento robusto de entrada de capital estrangeiro aumenta significativamente a oferta de dólares no país e ajuda a explicar, de maneira clara, a pressão de queda sustentada sobre a cotação da moeda americana frente ao real.

Impactos diretos no bolso do consumidor brasileiro

Entretanto, as implicações da desvalorização do dólar vão muito além do campo restrito dos investimentos. Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio, destaca que a valorização do real começa a aliviar despesas diretamente atreladas à moeda americana no cotidiano dos brasileiros.

Segundo sua avaliação, produtos como eletrônicos, eletrodomésticos e medicamentos, que estão entre os principais itens importados pelo Brasil, tendem a sofrer reajustes menores — ou até mesmo a se tornarem mais baratos — à medida que o custo de importação diminui com a moeda nacional mais forte.

"Os impactos para o bolso dos brasileiros têm reflexo rápido no dia a dia, com os produtos importados apresentando tendência de queda nos preços, e isso traz uma menor pressão inflacionária para a economia como um todo", detalha Riauba.

Araújo complementa que o alívio financeiro também se estende aos gastos com viagens internacionais, incluindo passagens aéreas e pacotes turísticos. Serviços vinculados ao dólar, como assinaturas de plataformas de streaming e compras em sites estrangeiros, igualmente tendem a pesar menos no orçamento familiar.

"Isso não significa uma queda automática e generalizada de preços nas prateleiras, mas reduz uma fonte importante de pressão inflacionária para os próximos períodos, contribuindo para um ambiente econômico mais equilibrado e previsível", acrescenta o consultor.

Reflexos no mercado financeiro e ajustes estratégicos

No mercado financeiro doméstico, a valorização do real tende a favorecer o mercado acionário brasileiro. Com a moeda local mais forte, aumenta o interesse de investidores estrangeiros pelo mercado de ações, o que beneficia especialmente empresas que possuem parte dos custos atrelados ao dólar, mas faturam predominantemente em reais.

De acordo com Riauba, para quem investe em ações, esse ambiente abre espaço para setores mais ligados ao consumo interno, como varejo, construção civil, educação, saúde, transporte e serviços em geral. Por outro lado, o especialista ressalta que empresas exportadoras — caso de setores estratégicos como agronegócio, proteína animal e mineração — costumam ser prejudicadas pela valorização cambial.

"Com o real mais forte, esses setores enfrentam pressão sobre as margens de lucro, reduzindo a lucratividade e a competitividade dessas empresas no curto prazo", afirma o especialista da StoneX.

Além disso, quando o dólar passa a operar de forma mais estável e previsível, diminui o risco de novas pressões inflacionárias originadas do câmbio. Isso traz mais segurança para a economia e tende a favorecer investimentos de renda fixa com regras de rendimento definidas, como os títulos prefixados e os atrelados ao índice IPCA.

Por outro lado, a perspectiva de cortes futuros na taxa Selic pode limitar o potencial de retorno desses papéis no médio prazo. Afinal, juros mais baixos reduzem a rentabilidade oferecida pelos novos títulos emitidos, o que exige maior atenção ao momento de entrada e à estratégia adotada pelo investidor individual.

Riscos políticos no horizonte eleitoral de 2026

Apesar do cenário mais favorável para o real, a trajetória de queda do dólar não está livre de riscos significativos. O principal deles é de natureza política e eleitoral. Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, alerta que, a partir de abril de 2026, o debate eleitoral tende a ganhar espaço preponderante na formação de preços dos ativos brasileiros, reduzindo o peso dos fundamentos macroeconômicos nas decisões do mercado.

"É esperado que, a partir de meados de abril e ao longo do segundo semestre, a pauta eleitoral passe a dominar a precificação dos ativos no Brasil. Nesse ambiente, os fundamentos perdem espaço, e o mercado passa a operar com maior sensibilidade ao noticiário político", afirma Shahini.

Segundo o analista, a questão fiscal segue como um ponto especialmente sensível nesse contexto. A ausência de sinais claros de compromisso com o equilíbrio das contas públicas pode afetar a confiança dos investidores e ter reflexos diretos e imediatos no câmbio.

"Uma falha em endereçar esse problema com um discurso sério e crível tem potencial para reverter a tendência de queda do dólar", adverte. Em um cenário de maior incerteza política, o chamado "prêmio de risco do Brasil" — a remuneração adicional exigida pelos investidores para aplicar no país — tende a aumentar substancialmente.

Isso pode interromper abruptamente a valorização do real e voltar a pressionar o dólar para cima. Esse movimento, ressalta Shahini, funciona como um "canal de transmissão negativa" para a economia brasileira, com impactos que podem voltar a se refletir nos índices inflacionários e nas expectativas para a taxa básica de juros nos próximos trimestres.