A expectativa de que o Banco Central do Brasil (BC) deve iniciar um ciclo de cortes da taxa básica de juros ainda no primeiro trimestre de 2024 está gerando uma janela de oportunidade crucial para investidores revisarem e reestruturarem suas carteiras de renda fixa. Atualmente, a Selic se mantém em 15% ao ano, mas projeções do mercado apontam para uma redução gradual ao longo do ano, com estimativas de encerramento em 12,25% ao ano, conforme dados do Boletim Focus.
O Cenário Econômico e as Incertezas que Influenciam o BC
Segundo especialistas consultados, a postura cautelosa do Banco Central na condução da política monetária é influenciada por uma série de fatores globais e domésticos. Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP, destaca que o cenário internacional começa o ano de forma conturbada, com tensões geopolíticas, como as do Oriente Médio, que podem impactar os preços do petróleo e, consequentemente, a inflação global e brasileira.
Além disso, incertezas sobre a condução do governo americano em relação ao Federal Reserve (Fed) e questões internas, como o possível aumento de gastos em ano eleitoral e dúvidas sobre reformas fiscais na nova gestão brasileira, também pesam na avaliação de risco do BC. "Por um lado, temos a perspectiva de enfraquecimento do dólar, o que pode ajudar a inflação. Mas também temos dúvidas sobre quais devem ser as reformas fiscais propostas pela nova gestão do Brasil", complementa a estrategista.
Como se Antecipar aos Cortes de Juros na Carteira de Investimentos
Diante desse cenário, especialistas recomendam que investidores montem estratégias voltadas para a diversificação em ativos de renda fixa. Um estudo da XP Investimentos, compartilhado em primeira mão, indica que períodos de queda de juros costumam ser favoráveis principalmente para:
- Títulos prefixados: com taxa de rendimento definida no momento da aplicação, permitindo ao investidor saber exatamente quanto receberá no vencimento.
- Títulos indexados à inflação (IPCA+): que rendem a inflação do período acrescida de uma taxa fixa, oferecendo proteção contra a alta de preços.
De acordo com a análise, que avaliou ciclos de queda desde 2005, o retorno médio do índice de prefixados (IRF-M) foi de 13,3% no primeiro ano após o início do ciclo de cortes, enquanto o do CDI (IMA-S) foi de 10,7% no mesmo período. O relatório também projeta que, para cada 1 ponto percentual de queda na Selic, títulos atrelados à inflação de curto prazo podem ter uma valorização adicional média de 0,40%, e prefixados podem subir 0,50% no mesmo mês.
Estratégias Práticas para Rebalancear a Carteira
Rachel de Sá enfatiza que este é o momento ideal para "rebalancear o mix de indexadores" da carteira, combinando ativos prefixados, atrelados à inflação e pós-fixados. "Isso não significa que o investidor precisa sair do CDI, que é um investimento que também tem o seu papel caso o ciclo de cortes seja menor e traz um pouco menos de volatilidade. O importante é entender que a diversificação de indexadores vai trazer um equilíbrio maior para a carteira", explica.
Passos Fundamentais para Preparar sua Carteira de Investimentos
Segundo Carlos Castro, planejador financeiro certificado pela Planejar, uma boa estratégia de investimentos deve seguir três etapas básicas, independentemente do ciclo econômico:
- Defina um horizonte de tempo: separe os objetivos de curto, médio e longo prazo para entender se deve adotar um perfil de risco mais conservador, moderado ou agressivo.
- Divida a carteira com base no perfil de risco: aloque recursos entre ativos de renda fixa, renda variável, multimercados e alternativos de forma equilibrada.
- Escolha os produtos financeiros: selecione cuidadosamente quais instrumentos irão compor cada classe de ativos, considerando liquidez e segurança.
Rafael Winalda, especialista de renda fixa do Inter, alerta para a importância de alinhar o horizonte de investimentos à necessidade de liquidez, evitando prejuízos por conta da marcação a mercado. "O erro mais comum é não alinhar o horizonte do investimento à necessidade de liquidez. Investidores que aplicam em títulos longos (como IPCA+ 2035 ou 2045) sem ter a certeza de que podem manter o dinheiro investido até o vencimento podem ser obrigados a vender com prejuízo em momentos de necessidade", destaca.
Dicas para Separar Investimentos Estratégicos da Reserva de Emergência
Para otimizar a gestão financeira, os especialistas recomendam:
- Separar a reserva de emergência em ativos líquidos e conservadores, garantindo acesso rápido a recursos em caso de imprevistos.
- Investir em títulos longos apenas com recursos que comprovadamente não serão necessários no curto ou médio prazo.
- Diversificar os vencimentos, evitando concentração excessiva em um único prazo ou estratégia, o que reduz riscos e aumenta a flexibilidade da carteira.
Em resumo, a antecipação aos cortes de juros exige uma abordagem estratégica e diversificada, com foco no rebalanceamento de indexadores e no alinhamento entre horizonte de investimento e perfil de risco. Com as projeções de redução da Selic ao longo de 2024, investidores bem preparados podem aproveitar as oportunidades para maximizar retornos e proteger seu patrimônio em um cenário econômico ainda marcado por incertezas.