Salvador celebra Iemanjá em tradição centenária de pescadores e fé
Salvador celebra Iemanjá em tradição centenária

Salvador celebra Iemanjá em tradição centenária de pescadores e fé

Salvador celebrou nesta segunda-feira (2) uma devoção que vem diretamente do mar, em uma manifestação cultural e religiosa que atravessa gerações. Na cidade que possui impressionantes 64 quilômetros de orla, as marés não apenas ditam o ritmo da vida, mas também moldam a espiritualidade de quem tira seu sustento das águas. Em Salvador, a pesca artesanal é um ofício tradicionalmente passado de pai para filho, assim como a fé profunda nos orixás se transmite através das famílias.

Origem nas colônias de pescadores

A capital baiana abriga nove colônias de pescadores, sendo todas elas devotas de Iemanjá, a Rainha do Mar. "É através da fé que a gente tem na Rainha do Mar, Iemanjá, que a gente vai na fé de que vai fazer uma boa pescaria quando adentramos ao mar", explica o pescador Marivaldo Santana, destacando como a espiritualidade se entrelaça com o trabalho diário. Foi precisamente em uma dessas colônias, localizada no bairro do Rio Vermelho, que nasceu a festa de Iemanjá, uma tradição que já ultrapassa os cem anos e se consolidou como uma das maiores manifestações culturais e religiosas do verão na Bahia.

História de fé e superação

No início do século passado, os pescadores enfrentavam sérias dificuldades com a escassez de peixes, o que ameaçava sua subsistência. Em um ato de desespero e esperança, eles decidiram levar uma oferenda ao mar, pedindo ajuda a Iemanjá. Esse gesto humilde foi repetido ano após ano, ganhando força e se espalhando pela cidade. Hoje, a festa atrai uma verdadeira multidão, com pessoas enfrentando longas filas para presentear a orixá com flores, perfumes e outros símbolos de gratidão.

O professor Rodrigo Souza, que veio do interior do estado especialmente para a celebração, expressa sua devoção: "Gratidão a Iemanjá por tudo que ela faz pelo povo baiano, em especial pela minha vida. São muitas bênçãos e não tem como não agradecer em um dia como o de hoje". Já a costureira Luci Souza prefere fazer sua oferenda de maneira mais íntima, alugando um barco para levar seus presentes a aproximadamente um quilômetro da praia. "Eu consegui minha casa nova, tudo de bom. Agradeço a Iemanjá, a Deus, aos santos, orixás, meus amigos, todo mundo que me ajudou", relata ela, ilustrando como a festa transcende o aspecto religioso para se tornar um momento de agradecimento coletivo.

Tradição que se renova

Em 2026, seguindo a tradição estabelecida, o presente principal para Iemanjá foi transportado em um cortejo marítimo, simbolizando a conexão direta entre a comunidade e o mar. Essa prática não apenas mantém viva a ancestralidade, mas também protege a tradição religiosa de possíveis mercantilizações, assegurando que a festa preserve seu caráter sagrado e comunitário. A celebração de Iemanjá em Salvador é, portanto, muito mais que um evento religioso; é uma expressão vibrante da cultura baiana, unindo fé, história e identidade em uma das cidades mais ricas em tradições do Brasil.