Wilson Cruz, 93 anos: guardião da história de Epitácio e devoto de Nossa Senhora dos Navegantes
Às margens do Rio Paraná, onde a história do Oeste Paulista começou a ser escrita no início do século 20, a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes atravessa gerações com força e tradição. Em Presidente Epitácio (SP), essa herança cultural tem um personagem central: Wilson Cruz, de 93 anos, nascido em 1933. Considerado por familiares e pesquisadores locais um verdadeiro museu vivo da cidade, ele dedica sua vida à fé e à preservação da memória regional.
Uma vida de devoção e tradição
Wilson participou da primeira festa dedicada à santa ainda na década de 1940 e esteve presente em praticamente todas as procissões desde então. A única ausência ocorreu no ano passado, por motivos de saúde. Ele participou de todas as procissões do Nosso Senhor dos Navegantes, com exceção do ano passado, por questão de saúde, ele está com 93 anos... a idade está avançada, contou seu filho, Wilson Cruz Filho, em entrevista.
A ligação entre o morador histórico e a santa se confunde com a própria formação do município, do antigo Porto Tibiriçá e da navegação no Rio Paraná, atividade que impulsionou o desenvolvimento econômico e social da região. A devoção chegou ao oeste paulista a partir do Sul do país, com a imagem trazida do Rio Grande do Sul, em um período em que o transporte fluvial era essencial. Não existia ponte e não existia estrada, como a gente tem a Raposo Tavares atualmente. Então, o transporte era feito ou por trem ou por via fluvial, explicou o filho.
Adaptações e significado cultural
Inicialmente, a celebração era realizada em 2 de fevereiro, data tradicional de Nossa Senhora dos Navegantes no Brasil. No entanto, em Epitácio, a comemoração foi transferida para 15 de agosto. Segundo relatos, em fevereiro o rio costumava transbordar, colocando em risco a procissão e a capela do Porto Tibiriçá. Agosto, período de seca, passou a oferecer mais segurança para a travessia, demonstrando a adaptação prática da tradição às condições locais.
Quando a festa começou a ser organizada, Wilson Cruz ainda era adolescente. Ele tinha cerca de 15 anos quando ajudou, junto com outros moradores, a erguer a capela do Porto Tibiriçá. Ele conta que ia no Rio Paraná junto com os outros pra pegar o barro, que fazia o tijolo, que foi erguido a capela que tem em Tibiriçá, relatou o filho. A motivação vinha da fé, mas também da relação direta com a navegação, já que Nossa Senhora dos Navegantes é considerada a protetora de quem trabalha nas águas.
Preservador da memória e legado histórico
Além da devoção, Wilson Cruz é reconhecido por preservar a memória da cidade. Ele foi funcionário da Bacia do Prata, secretário de turismo, comandante da embarcação turística Epitácio Pessoa e participou da formalização de Presidente Epitácio como estância turística. Ao longo da vida, reuniu um vasto acervo de fotos, documentos e vídeos, parte do qual deu origem ao livro Festa de Nossa Senhora dos Navegantes - 70 anos de história, lançado em 2019.
O livro reúne textos escritos por ele ao longo de décadas e registros audiovisuais acessados por meio de QR Code, com exemplares disponíveis na Biblioteca Municipal e em escolas locais. A versão digital e gratuita pode ser encontrada online, ampliando o acesso a essa rica história.
Fé além das fronteiras religiosas
Apesar da devoção profunda, Wilson Cruz não é católico; ele é espírita, o que reforça o caráter cultural e histórico da celebração. Meu pai não é católico, meu pai é espírita. É uma questão de fé, uma tradição de fé e religiosidade, não a devoção vinculada a uma religião, explicou seu filho. Essa perspectiva destaca como a tradição transcende dogmas, unindo a comunidade em torno de valores compartilhados.
Entre os relatos marcantes de sua vida está um acidente no Rio Paraná, já na fase adulta, onde ele atribuiu a sobrevivência à intercessão da santa. Esse episódio reforça a crença pessoal que sustenta sua dedicação ao longo dos anos.
Orgulho que atravessa gerações
Mesmo com o avanço da idade e um diagnóstico de Alzheimer, Wilson Cruz ainda demonstra forte ligação emocional com a festa. A ausência na procissão do ano passado foi um momento significativo para a família. Ele virou e falou: ‘realmente eu estou morrendo, não pude ir em Nossa Senhora dos Navegantes’. Foi um momento de lucidez que traduz o quanto isso significa para ele, relatou o filho.
Enquanto isso, o filho segue comprometido em preservar esse legado, trabalhando nos bastidores para a criação de um Centro Cultural Histórico do Porto Tibiriçá. Esse espaço deve reunir parte do acervo e contar a história da navegação, da cidade e da devoção à santa, garantindo que as futuras gerações possam conhecer e valorizar essa tradição.
A história de Wilson Cruz é um testemunho vivo da resistência cultural e da fé que moldaram Presidente Epitácio, servindo como inspiração para todos que buscam entender as raízes de sua comunidade.