Famílias constroem a fama de Nerópolis como Capital do Doce em Goiás
Famílias fazem de Nerópolis a Capital do Doce em Goiás

Famílias constroem a fama de Nerópolis como Capital do Doce em Goiás

O título de Capital do Doce, associado a Nerópolis, na Região Metropolitana de Goiânia, foi erguido ao longo de décadas por famílias dedicadas que transformaram receitas, rotinas e trabalho manual em uma identidade cultural sólida para a cidade. Da produção caseira realizada em fogões domésticos às indústrias que hoje abastecem diversos estados, a história do doce em Nerópolis é marcada pela continuidade familiar e pela preservação de métodos tradicionais de fabricação.

Em agosto de 2023, essa trajetória foi oficialmente reconhecida com a sanção da Lei nº 22.203, que declarou os doces de Nerópolis como patrimônio cultural imaterial de Goiás. Este marco legal coroa o esforço coletivo de gerações que mantiveram viva uma tradição que vai muito além da simples produção de alimentos.

Do fogão de casa ao carrinho de mão: a origem da Doces Nerópolis

A história da Doces Nerópolis começou em 1965, quando Humberto Marques Brandão e sua esposa, Dulcinea Navas Marques, iniciaram a produção de doces de forma totalmente artesanal. Segundo Matheus Fedato, diretor executivo da empresa e neto do fundador, no início tudo era feito dentro de casa, com participação direta de toda a família.

"Não tinha indústria, não tinha máquina. Era fogão, tacho, colher e força. Meu avô, junto com familiares, colocava a mão na massa", contou Matheus. Ele relata que o avô também foi responsável por levar o doce para fora das casas e torná-lo conhecido na região. "Tem gente que lembra dele saindo com carrinho de mão, indo de porta em porta, vendendo nas barraquinhas da rodovia", disse.

Com o aumento da procura, a produção foi sendo ampliada e, aos poucos, passou por um processo de profissionalização, especialmente a partir da década de 1980, quando a família investiu em estrutura e equipamentos. Ainda assim, segundo Matheus, a essência do produto foi cuidadosamente preservada. "Não é só o produto em si. A gente conta uma história. E isso exige cuidado, porque qualquer mudança interfere na identidade do doce", afirmou.

Porta a porta em Goiás: a trajetória da Kremolat

Outra história que ajuda a explicar o título da cidade é a da Kremolat, fundada em 1998 por Adão e Clarete. A empresa nasceu a partir da experiência dos pais de Lorraine Mendes, que hoje está à frente da fábrica. Antes de abrir o próprio negócio, ele passou cerca de 15 anos revendendo doces produzidos em Nerópolis, viajando por cidades goianas e vendendo de porta em porta.

"Durante esse tempo, ele aprendeu muito sobre doce: ponto, textura, qualidade. Ele sabia escolher o doce certo", contou Lorraine. A fábrica começou pequena, com produção limitada, e cresceu gradualmente. Lorraine lembra que a infância foi vivida dentro da produção, quando tudo ainda era feito em tachos aquecidos a fogo. "Era uma fornalha grande, tacho de cobre. A gente comia a rapa do tacho", relembrou.

Hoje, mesmo com processos mais modernos, hábitos antigos continuam presentes. "A rapa virou produto. Como os tachos de inox não fazem rapa, a gente deixa queimar um pouco, porque o cliente pede", explicou. A participação da família segue ativa, com o pai de Lorraine dedicando-se à produção do leite usado na fábrica, investindo em vacas leiteiras para garantir a matéria-prima.

Tradição mantida no fogão: a produção artesanal de Sônia Maria

Além das indústrias, a tradição doceira de Nerópolis também se mantém viva no preparo artesanal feito dentro de casa. Há 26 anos, Sônia Maria, de 75 anos, produz doces cristalizados de forma totalmente manual, ao lado do marido, Antônio, em uma cozinha simples no município.

Ela conta que começou a fazer doces após se aposentar do trabalho no sindicato rural. "Sempre tive vontade de fazer doce cristalizado. Fui criada na fazenda, tinha muita fruta, e a gente fazia doce pra consumo da família", relatou. O aprendizado veio por meio de cursos da Emater, mas a produção nunca saiu do ambiente doméstico. "Sempre fiz só em casa, nesse fogãozinho pequeno", disse.

Inicialmente, os doces eram feitos para eventos da família, mas com o tempo, dona Sônia começou a vender por encomenda e indicação. "É tudo no boca a boca. Um indica pro outro", afirmou. Sua produção inclui doces de frutas como laranja, abóbora, figo e mamão, além de cocadas e balas, que já chegaram a Goiânia, Brasília e até ao exterior, levados por clientes satisfeitos.

Identidade construída pelas famílias e reconhecimento oficial

Para Matheus Fedato, o reconhecimento de Nerópolis como Capital do Doce está diretamente ligado à história das famílias que ajudaram a formar esse polo produtivo. "A gente entende que não é só vender doce. A gente entrega uma história construída há décadas. Se perder a originalidade, perde a identidade", afirmou.

Ele destaca que a cobrança dos próprios moradores reforça essa preservação. "Tem cliente com paladar muito aguçado. Qualquer mudança, eles percebem", disse. Dona Sônia também avalia que o reconhecimento é resultado do esforço coletivo. "Antes era a terra do alho. O alho acabou, ficaram os doces. Tem muita gente que faz doce aqui. Nerópolis merece esse reconhecimento", afirmou.

Unindo produção artesanal e industrial, a história dos doces de Nerópolis segue sendo contada pelas mãos de famílias que transformaram tradição em identidade e ajudaram a consolidar o nome da cidade em Goiás e além de suas fronteiras.