Vozes Vissungueiras: álbum revive canto ancestral de Minas Gerais
Álbum reacende Vissungo, tradição afro-brasileira de MG

Um importante projeto musical acaba de lançar luz sobre uma das tradições mais antigas e significativas da cultura afro-brasileira. Intitulado "Vozes Vissungueiras", o álbum foi publicado em 10 de janeiro de 2026 e tem como missão reacender a prática do Vissungo, entendendo-o como uma potente forma de resistência e preservação cultural.

O que é o Vissungo e sua origem histórica

Mas, afinal, o que é o Vissungo? Trata-se de uma expressão cultural afro-brasileira que se configura como uma das modalidades de canto mais antigas e populares do país. Sua origem remonta ao período colonial, especificamente nas minas de ouro e diamante de Minas Gerais. Era entoado por pessoas escravizadas, em línguas africanas, servindo como um canal para expressar a dor, o sofrimento e, ao mesmo tempo, nutrir a esperança na manutenção dos laços ancestrais.

Uma jornada musical através das faixas

O álbum inicia com "Hino (Tangana Nzambi)", apresentando o vissungueiro Enilson Viríssimo, reconhecido não apenas como solista, mas como guardião do repertório. Sua contribuição foi crucial para preservar e gravar cantos até então inéditos.

A sequência musical é uma viagem profunda. Em "Bendito (Louvado Seja)", um solista conduz o cântico enquanto um coro responde. "Meu Corpo Todo Me Dói" traz a força da percussão unida à cantoria. Destaques como "Caxinguelê", com violão e a voz dobrada do solista, e "Kuenga", com chocalhos e cantoria malemolente, mostram a diversidade da obra.

Instrumentos tradicionais ganham espaço, como a timbila – um tipo de xilofone originário do povo Chopi de Moçambique – em "...lo vim de Aruanda". A flauta abre caminho em "Tinguê Canhama", e o álbum se encerra de forma poderosa com "Andambi", unindo vozes femininas e masculinas.

Uma equipe dedicada à preservação

O projeto contou com um time de artistas e técnicos renomados. A direção musical e arranjos ficaram a cargo de Salloma Salomão e Gui Braz. Nas vozes, destacam-se Graciela Soares, Luciano Mendes, o Mestre Enilson Viríssimo, Rita Teles e o próprio Salomão. A percussão reuniu nomes como Gui Braz, Luciano Mendes, Otis Selimane e Salloma Salomão. Artistas convidados de peso, como Juçara Marçal, Sérgio Pererê e Tiganá Santana, também emprestam seus talentos à obra.

Mais que música, um ato de resistência

"Vozes Vissungueiras" é, em sua essência, um trabalho de fôlego que joga luz sobre uma cultura que, infelizmente, ainda enfrenta racismos na atualidade. Ouvir este álbum é uma oportunidade de compreender melhor as raízes da formação brasileira. É um convite para refletir sobre quem somos, de onde viemos e para onde desejamos seguir como sociedade.

A produção, que contou com apoio da Lei Aldir Blanc e do Proac, se apresenta como um louvor à cultura viva e uma celebração da luta que permitiu que esta tradição chegasse até os dias de hoje. É um registro sonoro urgente e uma experiência cultural transformadora.