Rodeio Crioulo no RS: Tradição que Une Gerações e Fortalece a Identidade Gaúcha
A relação entre pais e filhos é uma das características mais marcantes observadas durante os rodeios crioulos no Rio Grande do Sul. Mais do que simples competições, esses eventos funcionam como verdadeiros espaços de transmissão de valores, costumes e práticas profundamente ligadas à vida no campo. Este tema foi abordado na primeira reportagem da série “Vidas de Rodeio”, apresentada pelo RBS Notícias, que acompanha famílias para quem o rodeio é parte integrante da rotina e da identidade cultural gaúcha.
No ano passado, o estado registrou mais de mil festas campeiras e rodeios, segundo dados da Secretaria Estadual da Agricultura, o que movimenta significativamente a economia local e reforça a importância dessas tradições.
O Laço que Une Pai e Filho na Serra Gaúcha
Em São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha, essa tradição começa ainda cedo. Enquanto o produtor rural Fábio Fogaça prepara o caminhão, o filho Otávio encilha os cavalos. Pai e filho seguem juntos para uma fazenda localizada a cerca de dez quilômetros da cidade, onde realizam a lida campeira, mantendo viva a história familiar.
Otávio dos Reis, estudante, destaca a importância de preservar o legado construído pelas gerações anteriores. “Eu acho muito importante levar adiante o que vem da família. Tem gente que acaba desfazendo tudo o que o avô, o pai e o bisavô construíram com tanto trabalho, aí se quebra o ciclo e termina a história da família. No nosso caso, sempre foi a pecuária”, afirma Reis.
Para o pai Fogaça, o laço mantém sua função prática no campo, ao mesmo tempo em que ganha outro significado nos rodeios. “No campo, o laço é uma ferramenta de trabalho, usada quando há necessidade, como reunir um animal que se afasta do rebanho. Já no rodeio, ele vira competição, treino e técnica, de brete a brete”, comenta.
Origens e Evolução dos Rodeios Crioulos
A tradição dos rodeios teve início há cerca de 75 anos, em Esmeralda, nos Campos de Cima da Serra, quando grupos de produtores passaram a se reunir para praticar o tiro de laço. Segundo Everaldo Dutra, coordenador da 27ª Região Tradicionalista, os rodeios surgiram de encontros simples e evoluíram ao longo do tempo.
“No começo, eram torneios por troféu, feitos no campo aberto, entre vizinhos e entidades. Com o tempo, vieram a organização, a economia e a geração de empregos, e o rodeio crioulo se consolidou como esse espaço que une o campo e a cidade”, explica Dutra.
Além das provas campeiras, os rodeios também passaram a incorporar apresentações artísticas, como a dança tradicional, enriquecendo ainda mais a experiência cultural.
Famílias que Vivem a Tradição no Dia a Dia
Em Guaíba, durante a Festa Campeira e Artística do CTG Gomes Jardim, pais e filhos dividem o protagonismo no tablado. O administrador Charles Alves acompanha o filho Léo em desafios de chula e conta que o interesse pela tradição faz parte da rotina da família.
“Lá em casa não tem brinquedo comum na sala. Tem uma lança. O Léo passa o dia inteiro chuleando, gosta muito e pede para assistir aos vídeos”, diz Charles.
Para ele, o principal objetivo da participação nos eventos não é a competição, mas a continuidade da cultura. “Não é uma disputa. Eles são amigos e torcem um pelo outro. O mais importante é se divertir e fazer essa gurizada seguir a tradição”, pontua.
Assim, os rodeios crioulos no Rio Grande do Sul se firmam como pilares da cultura gaúcha, promovendo a união familiar, a preservação de valores e o fortalecimento da identidade regional, enquanto contribuem para a economia e o desenvolvimento comunitário.