A folia carnavalesca em Brasília começa a ganhar contornos definidos para 2026, mas nem todos os tradicionais participantes estão celebrando. Nesta terça-feira (20), a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec) tornou público o resultado provisório dos blocos selecionados através do edital DF Folia 2026, um processo que destinará até R$ 10 milhões em recursos públicos para a festa.
Exclusão de agremiações históricas gera polêmica
A lista preliminar, que contempla diversos grupos do Distrito Federal, trouxe uma surpresa desagradável para quatro blocos de expressiva trajetória: o Menino de Ceilândia, a Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro (ARUC), o Bloco da Tesourinha e o Suvaquinho da Asa. A ausência dessas agremiações, algumas com mais de três décadas de história, imediatamente acendeu um alerta no cenário cultural local.
O g1 procurou a Secretaria de Cultura para entender os motivos específicos que levaram à desclassificação de cada um desses quatro blocos. Até o fechamento desta reportagem, no entanto, a pasta não havia se manifestado oficialmente sobre as justificativas individuais.
Critérios de seleção e possibilidade de recurso
Conforme estabelecido no edital publicado no Diário Oficial do DF em 19 de dezembro de 2025, a seleção dos blocos considerou parâmetros como o alinhamento da proposta aos objetivos do programa e a qualidade técnica apresentada. Propostas que obtiveram avaliação inferior a 10 pontos ou receberam nota zero em algum dos critérios foram automaticamente desclassificadas.
Os blocos que não figuram na lista provisória têm a oportunidade de apresentar um recurso administrativo. O resultado definitivo está previsto para ser divulgado pela Secec às 18h desta sexta-feira (23), definindo de vez o cenário do carnaval de rua na capital federal.
Reações das agremiações excluídas
A exclusão gerou uma onda de manifestações por parte dos blocos afetados, que expressaram desde surpresa até frustração com a decisão preliminar.
Menino de Ceilândia e a Liga dos Blocos Tradicionais
O Instituto Cultural Menino de Ceilândia, maior bloco de Ceilândia e com 31 anos de existência, confirmou que não foi selecionado e já trabalha na elaboração de um recurso. A agremiação integra a Liga dos Blocos Tradicionais, que emitiu uma nota contundente.
A Liga ressalta que a exclusão ignora dispositivos legais específicos. Desde 2019 enfrentamos inconsistências nestes editais que fragmentam a nossa Liga, afirmou o grupo, lembrando que são amparados pela Lei nº 4.738/2011, que reconhece a relevância e a necessidade de preservação dos Blocos Tradicionais.
O presidente da Liga foi enfático: Vamos entrar com os recursos e conversar com o Secretário Cláudio Abrantes para encontrarmos alternativas e não deixarmos os foliões da Ceilândia sem a nossa programação tradicional, sem o BLOCO MENINO DE CEILÂNDIA.
ARUC: tradição e persistência
Robson Silva, presidente da ARUC – primeira escola de samba do DF e detentora de 31 títulos de campeã nos desfiles locais – revelou que já apresentou recurso, mas demonstra ceticismo. Não temos muita esperança de ser atendidos, admitiu, lembrando que a escola também ficou de fora do DF Folia em 2024.
Independentemente do resultado do edital, a ARUC manterá seu tradicional Desfile na Avenida das Mangueiras, no Cruzeiro, marcado para 8 de fevereiro, a partir das 16h. Silva ainda fez um apelo: Lamentamos não sermos contemplados, mas aguardamos que neste ano também, mesmo que após o período do Carnaval, que a Secec dê prioridades ao retorno e continuidade dos Desfiles das Escolas de Samba no DF.
Suvaquinho da Asa: carnaval para as crianças
O Bloco Suvaquinho da Asa, voltado especialmente para o público infantil e com 13 anos de trajetória, manifestou surpresa e preocupação com a não classificação. Em nota enviada à TV Globo, o grupo afirmou que atendeu integralmente a todos os critérios do edital.
O Suvaquinho da Asa informa que apresentará recurso administrativo junto à SECEC, com o objetivo de compreender quais aspectos do projeto teriam motivado a não classificação e solicitar a devida revisão da decisão, declarou o bloco, que tem o frevo – Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil – como uma de suas principais referências.
A agremiação defendeu seu papel: Defender o Suvaquinho da Asa é defender o direito das crianças à cultura, ao espaço público e ao carnaval como manifestação popular, diversa e inclusiva.
Bloco da Tesourinha
A reportagem tentou contato com o Bloco da Tesourinha para obter um posicionamento, mas não obteve retorno até o momento.
O que é o DF Folia?
O DF Folia é o festival de carnaval oficial realizado em Brasília, reunindo uma programação diversificada que inclui blocos de rua, trios elétricos e grandes shows. O evento mobiliza milhares de foliões anualmente e representa um importante investimento público na cultura e na economia criativa do Distrito Federal.
Com a proximidade do carnaval 2026 – faltam menos de 30 dias para a festa –, a definição final dos participantes se torna urgente. A expectativa agora é pelo resultado definitivo da Secec, que determinará se os blocos tradicionais excluídos conseguirão reverter a situação ou se terão que buscar alternativas independentes para manter viva sua presença no carnaval brasiliense.