Rafaela Pimenta, agente de Haaland, denuncia machismo no futebol em entrevista à BBC
Agente de Haaland fala sobre machismo no futebol à BBC

Agente de estrelas do futebol expõe machismo estrutural no esporte em entrevista à BBC

Rafaela Pimenta, renomada agente esportiva que representa astros como Erling Haaland do Manchester City e Matthijs de Ligt do Manchester United, concedeu uma extensa entrevista à emissora britânica BBC Sport neste domingo. Na conversa, ela abordou temas cruciais, com foco especial na persistente dominação masculina no mundo do futebol, um cenário que ela descreve como desafiador para as mulheres que buscam espaço em posições de poder.

Um panorama histórico de exclusão feminina

Pimenta iniciou sua reflexão lembrando os primeiros anos de sua carreira, quando a presença feminina em cargos de tomada de decisão era extremamente rara. “Quando comecei a trabalhar com isso, anos atrás, havia pouquíssimas mulheres em cargos de tomada de decisão”, afirmou. Ela citou Marina Granovskaia, do Chelsea, como uma exceção, mas ressaltou que, em geral, era possível contar essas profissionais nos dedos das mãos. A agente observou que muitas mulheres atuavam nos clubes, desempenhando funções ligadas à tomada de decisões, mas sem o devido reconhecimento.

“Era como um corredor, sempre a mesma coisa: observação, área técnica, secretaria e tomada de decisões. Você passava por todo mundo e chegava à última porta. Atrás dessa última porta, havia um homem”, descreveu Pimenta, ilustrando a barreira invisível que as mulheres enfrentavam. Ela herdou o legado do italiano Mino Raiola após sua morte, em abril de 2022, e destacou que sua relação com ele era baseada em honestidade. “Ele dizia que eu era a única pessoa que dizia ‘não’ para ele. Como todos os outros só queriam o dinheiro dele, acabavam dizendo ‘sim’ aos projetos mais malucos. Eu achei que isso duraria cinco minutos. Acabou durando 35 anos”, completou, enfatizando sua postura firme e independente.

Casos de preconceito e a luta por respeito

Apesar dos avanços, Pimenta reconheceu que o cenário já foi pior, mas alertou para a persistência de atitudes machistas. Ela relembrou um episódio chocante de sua trajetória: “Percorremos um longo caminho desde a primeira reunião que tive com um diretor esportivo, que me disse: ‘Você existe mesmo. Achei que fosse uma prostituta vinda do Brasil’, até o ponto em que estamos hoje”. No entanto, ela lamentou que muitos homens ainda utilizem o gênero como ferramenta para desestabilizar as mulheres no ambiente esportivo.

“Eles falam pelas minhas costas para me fazer sentir frágil ou com menos poder”, denunciou. Para exemplificar essa cultura, Pimenta citou o polêmico beijo dado por Luis Rubiales, então presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, em Jenni Hermoso, após a conquista da Copa do Mundo Feminina de 2023. “Será que ele teria beijado o [Lionel] Messi na boca ou no rosto ao entregar um troféu? Se tivesse feito isso, não teria sido demitido imediatamente?”, questionou, criticando não apenas o ato, mas a demora na tomada de decisões punitivas.

Um compromisso com as futuras gerações

Pimenta enfatizou que sua luta vai além de interesses pessoais, estendendo-se às novas gerações de mulheres no futebol. “Em algumas pessoas, está tão enraizada a ideia de que mulheres são inferiores aos homens ou de que mulheres não entendem de futebol... Elas querem ser simpáticas com você, mas, mesmo quando são simpáticas, acabam te prejudicando”, explicou. Ela declarou que não aceita mais essas situações e busca criar um caminho mais fácil para as jovens que ingressam na indústria.

Como professora nos cursos de agentes da UEFA, Pimenta recebe frequentemente perguntas de mulheres em busca de orientação. Seu conselho é direto: “Sim: não aceitem abusos. Você não precisa se sexualizar para ser alguém nesta indústria”. Essa mensagem reforça seu compromisso em promover um ambiente mais igualitário e respeitoso, onde o talento e a competência prevaleçam sobre estereótipos de gênero.