Genndy Tartakovsky: Criador de 'Primal' e 'Samurai Jack' Ignora Algoritmos e Cria Para Si Mesmo
Criador de 'Primal' Ignora Algoritmos e Cria Para Si Mesmo

Genndy Tartakovsky: O Mestre da Animação Que Desafia Algoritmos e Demografias

Aos 58 anos, o russo-americano Genndy Tartakovsky, criador de obras icônicas como Primal e Samurai Jack, mantém uma postura firme diante das transformações da indústria do entretenimento. Em entrevista exclusiva, ele revela que ignora completamente algoritmos e análises demográficas para entregar conteúdo autêntico e visceral. Sua mais recente criação, a terceira temporada de Primal, disponível na HBO Max, é um testemunho dessa filosofia criativa que prioriza a surpresa e a emoção genuína.

A Filosofia Estoica Por Trás da Criação de Universos Únicos

Sobrevivente de cinco fusões corporativas e mudanças radicais na indústria – da era da TV a cabo ao domínio do streaming – Tartakovsky adota uma visão estoica sobre o negócio. “O negócio será sempre o negócio, está além do meu controle. Eu apenas crio séries”, afirma o diretor. Essa mentalidade permite que ele se concentre no essencial: desenvolver narrativas que quebrem expectativas e ofereçam experiências únicas aos espectadores.

Primal, que começou como uma saga pré-histórica sobre um homem das cavernas e um dinossauro, evoluiu para um estudo profundo sobre brutalidade, perda e resiliência. A terceira temporada traz uma guinada audaciosa, com o dinossauro Fang retornando como uma espécie de autômato morto-vivo em busca de vingança. Para Tartakovsky, essa mudança não foi acidental, mas uma necessidade criativa. “Eu gosto de assistir coisas que me surpreendam. E acho que a mesma coisa vale para Primal: você não sabe o que vai ver de episódio para o outro”, explica ele, rejeitando a fórmula previsível do “monstro da semana”.

Da Infância à Maturidade: A Evolução de um Estilo Inconfundível

A carreira de Tartakovsky espelha a própria evolução da animação americana moderna. Ele estourou jovem, aos 26 anos, com O Laboratório de Dexter, mas foi com Samurai Jack que encontrou sua voz definitiva. Cansado das convenções que ele mesmo ajudou a popularizar, buscou o oposto, criando uma série que valorizava o silêncio, o ritmo e a ação cinética. “Basicamente, estou cansado de diálogos. Estou cansado da linha preta grossa que fizemos em Dexter. Quero fazer algo diferente”, relembra sobre a gênese do samurai perdido no tempo.

Seu estilo visual – caracterizado por figuras angulares, poses extremas e uma dinâmica de movimento única – tem raízes profundas nos quadrinhos americanos dos anos 1970 e 1980. Tartakovsky cita Jack Kirby e Frank Miller como influências tão vitais quanto os cartoons clássicos da Warner Bros. “A forma como os quadrinhos são desenhados é uma caricatura da vida real, certo? Ninguém tem músculos daquele jeito. E quando você soca, é um soco exagerado”, reflete. “Minha base é Tex Avery misturado com algo como Jack Kirby.”

Criar Para Si Mesmo: A Rebelião Contra Grupos Focais e Algoritmos

Em uma era dominada por grupos focais, análises de dados e algoritmos que ditam tendências, a abordagem de Tartakovsky soa genuinamente rebelde. Ele faz para si mesmo, confiando em seu próprio gosto e sensibilidade artística. A violência gráfica de Primal ou a comédia adulta de Fixed – animação 2D sobre um cachorro em sua última noite antes da castração – não são cálculos de mercado, mas expressões autênticas de sua visão criativa.

“Eu não sei do que você gosta. Eu não sei do que seu filho gosta. Eu não sei do que uma criança gosta”, admite Tartakovsky. “Tudo o que podemos fazer é criar algo que nós, como grupo, gostamos. Sempre fizemos isso para nós, na esperança de que outras pessoas gostem da nossa sensibilidade.” Foi assim que Primal nasceu: ninguém pediu uma série muda sobre um homem das cavernas, mas Tartakovsky acreditou que valia a pena assistir.

O Futuro: Pragmatismo e a Busca Contínua por Novos Sabores

À frente, Tartakovsky mantém a cautela de quem viu projetos como Fixed levarem 15 anos para sair do papel. Atualmente, ele desenvolve Heist Safari, uma comédia de assalto com sapos, e continua tentando emplacar longas-metragens, incluindo o épico The Black Knight. Aos 58 anos, observa a nova geração e as mudanças tecnológicas sem saudosismo, mas com pragmatismo. “Tudo vai continuar mudando conforme a tecnologia progride. Mas os programas, o conteúdo… sempre serão necessários.”

Para Genndy Tartakovsky, enquanto houver uma tela em branco, haverá espaço para quebrar o silêncio com um traço forte, um soco exagerado e histórias que desafiam as convenções. Sua jornada é um lembrete poderoso de que, na cultura pop, a autenticidade ainda é a maior força criativa.