Hamnet: Filme Revela Verdades e Mitos da Vida Íntima de Shakespeare
Verdades e Mitos da Vida Íntima de Shakespeare em Hamnet

Hamnet: Verdades e Mitos da Vida Íntima de Shakespeare Revelados no Cinema

O filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet mergulha profundamente nos chamados anos perdidos de William Shakespeare, um período nebuloso que desafia historiadores há séculos. A obra cinematográfica, já em cartaz nos cinemas e concorrente ao Oscar, oferece uma visão sensível e envolvente da vida familiar do bardo, explorando a possível conexão entre a trágica morte de seu filho Hamnet e a criação da icônica peça Hamlet.

Os Anos Perdidos e o Mistério Indissipável

William Shakespeare, nascido em 1564, enfrentou dificuldades financeiras na juventude devido aos problemas de seu pai. Aos 20 anos, já criava três crianças e, em 1585, deixou sua família em Stratford-upon-Avon para iniciar um período de quase uma década sobre o qual pouco se sabe. Historiadores especulam que ele possa ter fugido por caçar cervos ilegalmente, atuado como professor ou partido para Londres em busca de uma carreira no teatro. Seu nome só surgiu na imprensa em 1592, quando suas peças já circulavam na capital e ele foi criticado por outro dramaturgo.

Mais de quatro séculos depois, a ausência de escritos confessionais de Shakespeare mantém sua biografia envolta em mistério. A escritora irlandesa Maggie O'Farrell, autora do livro que inspirou o filme, encarou essa névoa histórica como uma fonte rica para a ficção, publicando sua obra em 2020.

A Narrativa do Filme e a Humanização do Bardo

Dirigido por Chloé Zhao, vencedora do Oscar, o longa apresenta Shakespeare interpretado por Paul Mescal, que encontra e se casa com a irreverente Agnes, vivida por Jessie Buckley. Juntos, eles formam uma família com os filhos Susanna, Judith e Hamnet. A trama se concentra na tragédia familiar: a morte de Hamnet aos 11 anos, vítima da peste bubônica.

O filme explora a curiosa coincidência entre o nome do filho e a peça Hamlet, sugerindo laços emocionais entre a perda pessoal e a obra clássica. Essa abordagem humanizadora tem cativado audiências globais, embora alguns críticos a classifiquem como fan-fiction, um debate que ecoa entre estudiosos do dramaturgo.

Fatos Versus Ficção na Biografia de Shakespeare

O roteiro do filme renova discussões sobre o que é verdade ou mito na vida de Shakespeare. Ele inclui fatos inegáveis, como seu nascimento em Stratford-upon-Avon, casamento e carreira em Londres. No entanto, ignora detalhes como a possível diferença de idade entre Shakespeare e Agnes, que talvez se chamasse Anne, segundo registros históricos.

Para iluminar a figura feminina por trás do bardo, o filme cria uma Agnes fictícia, retratada como uma mulher conectada à natureza e dedicada aos filhos, embora distante do trabalho do marido. Essa criação artística segue uma tradição de reinterpretações, como a feita por Virginia Woolf em Um Quarto Só Seu, onde imaginou uma irmã genial de Shakespeare impedida pela sociedade.

O Legado Atemporal de Shakespeare na Cultura Pop

Com o passar dos séculos, Shakespeare transcendeu sua condição humana para se tornar uma ideia cultural, permitindo anacronismos e reinterpretações na cultura pop. Exemplos incluem o filme Shakespeare Apaixonado, músicas como The Fate of Ophelia de Taylor Swift, e até a animação O Rei Leão.

Em Hamnet, o olhar contemporâneo se volta para o luto. Na época elisabetana, as mortes infantis eram comuns, e Shakespeare perdeu três irmãs na infância. Entre a morte de Hamnet e a primeira apresentação de Hamlet, ele escreveu outras doze peças, tornando impreciso afirmar que a obra foi concebida como literatura de cura. Ainda assim, o filme captura o espírito da tragédia shakespeariana, servindo como espelho da natureza humana.

Conclusão: Um Convite à Criatividade

Quase meio milênio após seu nascimento, o legado de William Shakespeare permanece vibrante. Inventor de mais de 1.700 palavras, autor de 154 sonetos e 37 peças, ele não deixou apenas lacunas biográficas, mas ferramentas para que admiradores preencham esses vazios com criatividade. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é mais uma contribuição a essa tradição, convidando o público a refletir sobre a linha tênue entre fato e ficção, e a ampliar sua visão de mundo através da arte.