Cortesãs na TV: Dona Beja e outras heroínas do sexo que desafiam a moral
A estreia do remake de Dona Beja na HBO Max, com Grazi Massafera no papel principal, reacende um tema caro à ficção nacional: a representação de cortesãs e profissionais do sexo como figuras de força e autonomia. A produção, que chega ao streaming em 2 de fevereiro, revive a história de Ana Jacinta de São José, uma mulher que, após ser sequestrada e trocar seu corpo por joias, retorna a Araxá para fundar a famosa Chácara do Jatobá e escandalizar a sociedade mineira do século XIX.
Uma tradição brasileira de heroínas transgressoras
Mais do que um simples apelo sensual, Dona Beja se insere em uma rica tradição de narrativas brasileiras que transformam mulheres marginalizadas em símbolos de empoderamento. Desde a literatura até a televisão, essas personagens desafiam convenções sociais e conquistam o público com suas jornadas de superação.
- Hilda Furacão: A minissérie da Globo de 1998 contou a história de uma socialite que abandonou um casamento idealizado para viver em um prostíbulo em Belo Horizonte, desafiando a moral da época.
- Bruna Surfistinha: O filme de 2011, baseado na vida real de Raquel Pacheco, mostrou uma jovem de classe média que se tornou prostituta em busca de independência, arrecadando mais de 20 milhões de reais em bilheteria.
- Remakes e sequências: A produtora Boutique anunciou um remake de Hilda Furacão, enquanto uma sequência de Bruna Surfistinha com Deborah Secco está prevista para dezembro deste ano.
O contraste com Hollywood e a força das narrativas nacionais
Enquanto Hollywood tende a explorar histórias de cortesãs com finais à la Cinderela, como em Uma Linda Mulher (1990) ou Anora (2024), a ficção brasileira se destaca por enfatizar a resiliência e a autonomia dessas mulheres. Segundo a historiadora Mary Del Priore, "a prostituta encarna temas universais, como a transgressão das normas, o amor impossível, o comércio do corpo e a sobrevivência", permitindo explorar tabus sexuais e sociais de forma única.
Daniel Berlinksy, roteirista do remake de Dona Beja, ressalta que "a mulher objetificada transforma essa objetificação no poder dela", refletindo como essas personagens subvertem expectativas. A nova produção promete reviver cenas icônicas, como as de nudez na cachoeira que marcaram a versão original da Rede Manchete, mas com um foco renovado na luta pela agência feminina.
O legado de Dona Beja e o futuro das cortesãs na teledramaturgia
A personagem de Dona Beja, interpretada originalmente por Maitê Proença e agora por Grazi Massafera, exemplifica como essas narrativas ressoam com o público. Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP, teoriza que "ela transformou a dor em prazer estético, fundou uma casa de prostituição para se vingar dos homens e desnudar a hipocrisia social".
Com quarenta capítulos, a nova versão da HBO Max não apenas homenageia o passado, mas também renova o debate sobre gênero e poder no entretenimento. À medida que produções como essa continuam a surgir, fica claro que as cortesãs empoderadas da ficção brasileira não são apenas personagens, mas reflexos de uma sociedade em transformação.