Sobrado tombado em Amparo (SP): um marco histórico em concreto armado
Imagine residir em uma casa que não pode ser demolida, exigindo cuidados especiais antes de qualquer intervenção. Essa é a experiência do comerciante Paulo Pacetta, que habita um imóvel tombado em Amparo, no interior de São Paulo. Localizado próximo à Praça da Catedral, o sobrado de cores claras atrai olhares de admiradores da arquitetura, sendo uma das primeiras construções em concreto armado do estado.
Projeto pioneiro de Hippolyto Gustavo Pujol Júnior
Erguido no início do século XX, o imóvel foi projetado pelo engenheiro Hippolyto Gustavo Pujol Júnior, um dos precursores na utilização do concreto em edifícios no Brasil. Ele é responsável por obras emblemáticas, como o Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo e o Theatro Pedro II em Ribeirão Preto. A construção, com visual moderno para a época, representa um avanço tecnológico significativo.
História e construção do sobrado
O sobrado foi encomendado por João Baptista Cintra, um cafeicultor que, em 1840, desejava uma residência no centro da cidade. Seu filho, Constâncio Sintra, encarregou Gustavo Pujol de criar o projeto. "Ele fez dois projetos e era um negócio muito futurista. A casa era super moderna, com tecnologia, com concreto armado, que na época ninguém tinha ouvido falar", relata Paulo Pacetta.
Inicialmente, João Baptista não aprovou a ideia, levando à construção de duas casas: uma de taipa para o pai e outra de concreto para o filho. A técnica inovadora gerou curiosidade e até dúvidas sobre sua durabilidade. "Até aposta saiu aqui. Será que vai cair ou será que vai ficar? Olha, foi um acontecimento inédito", completa o morador, destacando que, mais de um século depois, a estrutura permanece intacta.
O que é tombamento e seus objetivos
Para esclarecer a importância do tombamento, o g1 conversou com Marcos Tognon, professor do Departamento de História do IFCH-Unicamp. Ele explica que o tombamento no Brasil existe desde 1937, sendo um ato governamental para preservar bens arquitetônicos, urbanísticos, rurais, móveis e documentais. O objetivo é garantir a conservação de registros materiais relevantes para a história e identidade cultural, seja em nível nacional ou regional.
Deveres e direitos dos proprietários
Ter um imóvel tombado implica reconhecimento histórico, mas também responsabilidades. O proprietário deve preservar a originalidade do bem e solicitar autorização para quaisquer intervenções, como reformas ou atualizações. "Toda vez que ele for realizar alguma atualização, por exemplo, construir um novo banheiro, fazer um elevador, tem que pedir autorização e apresentar um projeto para os órgãos de preservação", detalha o especialista.
Possibilidades de intervenções e reformas
O tombamento não impede completamente modificações. Dependendo das regras estabelecidas, a fachada pode ser intocável, enquanto a estrutura interna pode ser alterada. Em alguns casos, até mudanças de uso são permitidas, como a conversão de residencial para comercial.
Vantagens de possuir um imóvel tombado
Marcos Tognon enumera benefícios associados ao tombamento:
- Reconhecimento histórico: Preserva a memória e pode valorizar financeiramente o imóvel.
- Incentivos municipais: Algumas prefeituras oferecem isenção de IPTU para auxiliar na manutenção.
- Potencial construtivo: Proprietários podem vender direitos de construção adicionais, gerando renda extra.
- Benefício social: A preservação do patrimônio histórico enriquece a comunidade como um todo.
Reflexões finais sobre o tombamento
Em resumo, o professor da Unicamp destaca que tombamento não significa congelar o imóvel no tempo, pois intervenções autorizadas são viáveis. Obrigações vêm acompanhadas de direitos, e a preservação beneficia a sociedade, não apenas o dono. Cada bem tombado é único, com características históricas específicas, e o processo pode resultar em valorização financeira.
Para Paulo Pacetta, morar nesse sobrado é como viver dentro de um livro de história. "Dia de sábado eu fico na sacada com meus cachorros e sempre param para perguntar como é a casa. Às vezes, dependendo da conversa, eu até deixo entrar lá, tomo uma aguinha, eles ficam todos contentes. É um patrimônio histórico importante aqui", conclui, orgulhoso de sua residência centenária.