Besouro-joia: inseto de brilho metálico é flagrado em Minas Gerais
Besouro-joia: inseto brilhante é registrado em MG

Besouro-joia: conheça o inseto de brilho metálico flagrado em MG

Entre o verde das folhas, algo brilha de forma quase artificial. Não é um mineral, nem um reflexo isolado do sol, mas um inseto cuja superfície parece polida. O besouro-joia ou gorgulho-joia, cientificamente conhecido como Polyteles stevenii, transforma luz em cor e chama a atenção pelo corpo de tom verde-azulado intenso, um verdadeiro espetáculo da natureza.

O fenômeno da iridescência natural

O brilho metálico é um fenômeno natural relacionado à estrutura do corpo do animal. A interação da luz com a superfície das escamas resulta na iridescência – fenômeno óptico que faz superfícies exibirem cores vívidas. Entretanto, diferente da iridescência tradicional, presente em arco-íris ou bolhas de sabão, o brilho desse besouro não muda bruscamente conforme o ângulo de visão. A reflexão das escamas permanece com a coloração uniforme e exuberante, criando um efeito visual impressionante.

Estratégia de sobrevivência e hábitos

Segundo Aline de Oliveira Lira, bióloga especialista na família do besouro-joia (Curculionidae), a função exata dessa característica ainda não é amplamente conhecida. Embora não haja comprovação ecológica plena, as evidências sugerem que o brilho pode contribuir para a cripse, que é uma camuflagem que permite ao inseto misturar-se com o ambiente, ou para o mimetismo, quando a espécie evolui para se parecer com outra e obter vantagens, como defesa, considerando a exposição frequente do animal sobre a vegetação.

Como esses animais alimentam-se de plantas, passam longos períodos expostos sobre a vegetação. Nesse contexto, a coloração pode desempenhar um papel importante na redução da predação, afirmou Aline. Como há poucos estudos específicos sobre a espécie no país, os hábitos são estimados com base na subfamília à qual pertence, a Entiminae. Conforme a pesquisadora, esses besouros são usualmente fitófagos, ou seja, alimentam-se de plantas. Por isso, prevê-se que os gorgulhos-joia passem boa parte da vida na vegetação, onde também se reproduzem.

Registros fotográficos feitos por observadores da natureza confirmam as hipóteses, mostrando os insetos consumindo folhas e copulando sobre as plantas, reforçando a conexão íntima com seu habitat natural.

O flagrante em Santa Luzia

A fotógrafa e educadora ambiental Bruna Pinto registrou esse momento enquanto fazia uma observação no quintal de casa, em Santa Luzia, Minas Gerais. Apaixonada por registros da natureza, ela administra um perfil nas redes sociais onde expõe e informa sobre diversos insetos. Bruna conta que procurava ativamente por eles para fotografá-los, mas o encontro foi inesperado. Ao mirar a câmera para um percevejo, deparou-se com algo muito brilhante na folha ao lado. Para sua surpresa, era o besouro-joia.

Quando me virei e vi o brilho azul fiquei emocionada, foi como ganhar na loteria! O que mais me chamou a atenção foi essa cor, azul metálico, com pontos que brilham e variam de tom quando bate a luz do Sol, relatou Bruna. De acordo com ela, o besouro já havia aparecido nas plantas de sua residência em anos anteriores, geralmente entre outubro e dezembro. A educadora acreditava que não o veria nesta temporada, pois o período usual já havia passado, mas acabou presenteada com a aparição.

Bruna destaca que, no Brasil, existe uma grande biodiversidade ainda pouco conhecida proporcionalmente à sua riqueza. Assim, mesmo uma espécie peculiar como o besouro-joia pode passar despercebida. Para ela, a educação ambiental é a chave: Hoje, com as cidades e as tecnologias, as pessoas se desconectaram do mundo natural. E isso é terrível pra nossa espécie. A educação ambiental tem o poder, quando bem aplicada, de fazer essa reconexão, e mostrar que a gente pode ser tecnológico e conviver bem com a natureza também.

É uma espécie rara?

Conforme a especialista Aline Lira, apesar de ser bastante chamativo, o besouro-joia não é considerado uma espécie rara. O fato de não ser visto com frequência em qualquer lugar está relacionado aos seus hábitos, já que ele ocorre majoritariamente em áreas verdes preservadas. Existem diversos registros disponíveis em plataformas de biodiversidade e de ciência cidadã feitos em diferentes regiões do Brasil, além de países como Argentina, Bolívia e Paraguai.

A bióloga ressalta, porém, que o conhecimento científico está sempre em evolução e novos dados podem surgir. É importante destacar que essa espécie não vem sendo estudada taxonomicamente há algum tempo. Por isso, é possível que existam outros registros ainda não publicados ou não digitalizados, por exemplo, em coleções entomológicas. Assim, a área de distribuição dessa espécie pode ser mais ampla do que a que conhecemos atualmente, finalizou.