Câmera corporal capta áudio de tortura atribuída a PMs no RS; quatro militares são réus
Áudio de câmera corporal registra tortura por PMs no RS

Câmera corporal registra áudio de suposta tortura por policiais militares no Rio Grande do Sul

Uma câmera corporal utilizada por um policial da Brigada Militar do Rio Grande do Sul captou, em áudio, uma suposta sessão de tortura que teria sido praticada durante uma abordagem na Zona Sul de Porto Alegre. O equipamento, que teve a lente intencionalmente obstruída, impedindo o registro de imagens, continuou gravando sons que, segundo o Ministério Público, são compatíveis com agressões graves.

Quatro policiais militares se tornam réus na Justiça Militar

Quatro soldados do 21º Batalhão da Brigada Militar foram denunciados e se tornaram réus na Justiça Militar por crimes como tortura, invasão de domicílio e cárcere privado. Dois deles estão presos preventivamente no Presídio Policial Militar, enquanto os outros dois respondem ao processo em liberdade. Os advogados de defesa afirmam que os policiais são inocentes e que as provas apresentadas no processo demonstram a ausência de violência.

Detalhes chocantes da abordagem no bairro Lami

O caso teria ocorrido na madrugada do dia 1º de agosto de 2025, no bairro Lami, em Porto Alegre. De acordo com a denúncia do Ministério Público, os policiais militares invadiram residências sem mandado judicial, arrombando portas com chutes e objetos metálicos enquanto as vítimas dormiam. Pelo menos três pessoas teriam sido submetidas a agressões físicas e psicológicas, em um episódio descrito como “rodízio de terror”, com torturas aplicadas de forma alternada.

Áudio da câmera corporal revela cenas de horror

O áudio gravado pela câmera corporal, com duração de 23 minutos, captou sons que incluem:

  • Um homem clamando pelo fim da tortura.
  • Vozes atribuídas aos policiais perguntando repetidamente “onde está a PT”, abreviação para pistola.
  • Ameaças graves, como “A próxima vai ser na tua mulher, tua 'nega véia'. Vamos ficar até amanhã”.
  • A afirmação de um policial: “Agora é sessão de horrores”.

O Ministério Público sustenta que as gravações captaram sons de sufocamento com sacola plástica, uso de arma de choque e agressões físicas.

Vítima é retirada de casa e submetida a torturas em múltiplos locais

Segundo a denúncia, após invadir a residência, os policiais renderam um homem em seu quarto, agredindo-o com spray de pimenta e ameaçando-o para obter informações sobre uma arma de fogo. Diante da falta de respostas, a vítima foi retirada à força de casa, colocada no porta-malas de uma viatura e levada para diferentes pontos da Zona Sul de Porto Alegre.

Nos locais, ela teria sido submetida a torturas que incluíram:

  1. Disparos de arma de incapacitação neuromuscular.
  2. Agressões com pedaços de pau e chutes.
  3. Dois tiros de arma de fogo disparados próximos ao corpo, como forma de intimidação.

Laudos periciais anexados ao processo confirmam múltiplas lesões, como equimoses, escoriações e hematomas, compatíveis com as agressões descritas.

Companheira da vítima é mantida em cárcere privado

Enquanto o homem era levado pelos policiais, sua companheira permaneceu dentro da residência, supostamente impedida de sair por um dos militares, caracterizando cárcere privado. O objetivo, segundo o MP, era evitar que ela buscasse ajuda durante a abordagem.

Posicionamento da Brigada Militar e das defesas

A Brigada Militar emitiu uma nota informando que a Corregedoria-Geral da instituição instaurou um Inquérito Policial Militar para esclarecer os fatos. Os quatro policiais envolvidos foram indiciados, afastados de todas as funções e submetidos a processos administrativos. A instituição reafirmou seu compromisso com a legalidade e repudiou condutas desproporcionais.

Os advogados de defesa argumentam que:

  • Os policiais são inocentes, com provas de vídeo e declarações das vítimas que atestam a ausência de violência.
  • Um dos acusados era apenas o motorista da viatura e não participou dos atos descritos.
  • Outro réu não teve contato físico com as vítimas, respondendo ao processo em liberdade por força de um habeas corpus.

Julgamento de habeas corpus marcado para esta quarta-feira

Nesta quarta-feira (28), o Tribunal de Justiça Militar deve julgar o habeas corpus dos dois militares que ainda estão presos. O processo avança para as alegações finais, com a promotora Anelise Haertel Grehs à frente da acusação. Ela destacou que a investigação não esclareceu o interesse dos policiais por uma pistola específica.

Os réus são os policiais Sandro Urubata Acosta, Anderson Azambuja de Souza, Anderson Nascimento da Silva e Nathan Fraga Leon. O caso continua sob os holofotes da Justiça Militar, com repercussões significativas para a segurança pública e os direitos humanos no estado.