Justiça inglesa recebe ação coletiva sobre megavazamento de dados da Serasa que afetou milhões de brasileiros
A Justiça da Inglaterra está preparada para julgar um dos maiores casos de vazamento de dados na história recente do Brasil, um episódio que impactou aproximadamente 220 milhões de pessoas há cinco anos. A ação coletiva, protocolada em 9 de janeiro de 2026, visa responsabilizar a Serasa e outras duas empresas do grupo britânico Experian, acusadas de expor dados sensíveis de cidadãos brasileiros em fóruns clandestinos da deep web.
Detalhes do vazamento e processo judicial
O megavazamento foi identificado em janeiro de 2021, após descoberta pelo laboratório de cibersegurança da empresa Psafe. Criminosos começaram a divulgar informações pessoais críticas, incluindo:
- CPF e RG
- Data de nascimento
- Escolaridade
- CNPJs
- Receitas do FGTS
Isso deixou os brasileiros extremamente vulneráveis a fraudes e outros crimes digitais. O caso está sendo tramitado exclusivamente na Inglaterra porque duas das empresas controladoras do grupo Experian têm sede e operam a partir do território inglês, permitindo que sejam processadas localmente.
Organização da ação coletiva e participação das vítimas
Andrew Shorts, sócio do escritório de advocacia internacional Mishcon de Reya e responsável pela ação, explica que o processo tem um rito diferente do brasileiro. A petição inicial foi protocolada com dados mais simples, e os detalhes serão apresentados ao longo do caso, o que facilita a adesão de outras vítimas. Até o momento, cerca de 25 mil pessoas, a maioria brasileiros, já manifestaram interesse em integrar a ação.
Shorts destaca que, embora o processo seja conduzido pela Justiça inglesa, a legislação brasileira será considerada. "O direito de indenização dos autores decorre das leis brasileiras, ainda que o processo esteja sendo julgado na Inglaterra", afirma. Os tribunais ingleses aplicarão a lei brasileira, pois os direitos violados existem no ordenamento jurídico do Brasil, mas não no inglês.
Objetivos da ação e posicionamento da Serasa Experian
O principal pedido da ação é a condenação das empresas e o pagamento de indenizações financeiras aos titulares afetados. Os valores serão definidos pela corte inglesa se a responsabilidade do grupo Experian for reconhecida. Shorts ressalta que este caso serve como um alerta para grandes corporações melhorarem a segurança de dados, sob risco de penalidades financeiras significativas.
Em resposta, a Serasa Experian negou ter sofrido invasões em seus sistemas na época do vazamento e apresentou um laudo pericial de auditoria independente às autoridades, embora não tenha divulgado detalhes. A empresa afirmou não ter sido citada na ação, mas a Agência Pública confirmou sua presença no processo através do sistema da Justiça inglesa. Em nota, a Serasa lamentou a propagação de informações enganosas e reforçou seu compromisso com a proteção de dados e a legalidade de suas práticas.
Implicações e contexto mais amplo
Este caso destaca questões críticas de segurança digital e proteção de dados em escala global, especialmente em um mundo cada vez mais conectado. A ação na Inglaterra pode estabelecer precedentes importantes para litígios internacionais envolvendo violações de privacidade, incentivando empresas a adotarem medidas mais robustas para salvaguardar informações sensíveis.
Com milhões de brasileiros potencialmente afetados, o desfecho deste processo será monitorado de perto por especialistas em direito digital e defensores dos direitos do consumidor, podendo influenciar futuras políticas e regulamentações sobre cibersegurança no Brasil e além.