Operação Bazaar desmantela esquema de corrupção sistêmica na Polícia Civil de São Paulo
Operação Bazaar desmantela corrupção na Polícia Civil de SP

Operação Bazaar desmantela esquema de corrupção sistêmica na Polícia Civil de São Paulo

Uma força-tarefa composta pelo Ministério Público de São Paulo, Polícia Federal e Corregedoria Geral da Polícia Civil realizou na quinta-feira (5) a Operação Bazaar, que resultou na prisão de nove pessoas suspeitas de integrarem uma organização criminosa especializada em corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro dentro de departamentos estratégicos da Polícia Civil paulista. A investigação revelou que delegacias especializadas teriam sido transformadas em verdadeiros balcões de negócios para garantir a impunidade de criminosos mediante pagamento de propinas.

Mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro

O grupo utilizava métodos elaborados para ocultar a origem ilícita dos recursos. Um dos pontos centrais era a conversão de dinheiro vivo em créditos de vale-refeição através de estabelecimentos comerciais fictícios que registravam vendas inexistentes. Dessa forma, os valores ilegais eram inseridos no sistema como benefícios trabalhistas, dificultando sobremaneira o rastreamento pelas autoridades financeiras. A rede também empregava empresas de fachada e simulava operações de importação para dar aparência legal aos recursos ilícitos.

Valores milionários em propinas

As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) revelaram cifras impressionantes. Áudios e mensagens interceptados mencionam uma transferência de R$ 33 milhões referente a um acerto em uma delegacia. Em outro diálogo, um dos alvos afirma que um delegado já teria recebido mais de R$ 20 milhões em propina. Há ainda relatos de episódios em que policiais exigiram R$ 5 milhões para não dar prosseguimento a inquéritos específicos. Mensagens mostram pagamentos fracionados de valores menores, como R$ 10 mil, R$ 100 mil e R$ 220 mil, destinados a departamentos como o Departamento de Investigações Criminais (Deic).

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Quem são os principais envolvidos

Entre os nove detidos estão quatro policiais civis:

  • O delegado João Eduardo da Silva (lotado na Delegacia do Jabaquara)
  • O escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz (também do Jabaquara)
  • Os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção do DPPC)
  • Rogério Coichev Teixeira (do Serviço Aerotático)

Também foram presos os advogados Antônio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antônio Fontana, além da doleira Meire Poza. O doleiro Leonardo Meirelles teve a prisão decretada, mas permanece foragido.

Conexão com a Operação Lava Jato

Meire Poza e Leonardo Meirelles, figuras conhecidas por atuarem na estrutura financeira do doleiro Alberto Youssef durante a Operação Lava Jato, reapareceram como operadores financeiros deste esquema em São Paulo. Meire Poza é acusada de ser a responsável pela contabilidade do grupo criminoso e de pagar propina a policiais para evitar fiscalizações. Já Meirelles, que possui acordo de delação homologado pelo Supremo Tribunal Federal em casos anteriores, é apontado como o responsável por ajudar a mascarar a origem do dinheiro da corrupção policial.

Locais das irregularidades

As negociações ilícitas e os atos de corrupção foram identificados em unidades de elite da Polícia Civil, como o Departamento de Investigações Criminais (Deic) e o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Investigadores relatam que houve episódios de pagamento de propina realizados no hangar do Serviço Aerotático no Campo de Marte e extorsões conduzidas no âmbito do 16º Distrito Policial (Vila Clementino). Em um dos casos mais graves, criminosos teriam tido acesso ao DPPC para substituir um disco rígido apreendido por um dispositivo vazio, destruindo provas incriminatórias.

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Origem da investigação

A Operação Bazaar é um desdobramento da Operação Recidere, de 2023, que investigou um esquema bilionário (R$ 4 bilhões) de envio de dinheiro ilícito ao exterior. Após a análise de celulares apreendidos naquela ocasião, descobriu-se que os operadores financeiros mantinham uma relação de corrupção com delegados e investigadores da ativa. Outra investigação relacionada, a Operação Fractal, que apurava fraudes bancárias e lavagem com criptomoedas, também revelou tratativas ilícitas e fraude processual por parte de policiais civis que deveriam estar investigando esses crimes.

Posicionamento das autoridades

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da ação e que a instituição "não compactua com desvios de conduta". A Polícia Civil determinou a realização de apurações administrativas rigorosas em todas as unidades onde houve buscas e informou que a Corregedoria fará verificações extraordinárias nos atos de polícia judiciária conduzidos pelos agentes presos.

O governador em exercício, Felicio Ramuth (PSD), classificou o esquema como "pontual" durante agenda em Bauru, no interior de São Paulo. "É um caso pontual, ele não significa que a Polícia Civil esteja envolvida, mas envolve quatro policiais, e repito, foi uma investigação conjunta da Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público, para que a gente pudesse atuar e tomar as devidas providências", afirmou Ramuth, garantindo que as medidas tomadas pelo governo serão "tão duras quanto os crimes que esses maus profissionais cometeram".

A Justiça decretou 11 prisões preventivas e autorizou 23 mandados de busca e apreensão em residências, escritórios de advocacia e sedes de delegacias, evidenciando a extensão do esquema criminoso que subverteu o dever funcional de agentes públicos para negociar a liberdade de suspeitos.