Advogado foi alertado sobre riscos de abrir casa de apostas antes de assassinato no Rio
O advogado Rodrigo Marinho Crespo, de 42 anos, recebeu alertas explícitos de seus sócios sobre os perigos de abrir uma casa de apostas (bet) meses antes de ser assassinado a tiros no Centro do Rio de Janeiro. As conversas foram reveladas durante o júri popular de três acusados pelo crime, que começou na quinta-feira (5) e foi interrompido no fim da noite, sendo retomado na manhã desta sexta-feira (6).
Projeto de sports bar com apostas online
Rodrigo Crespo havia manifestado aos parceiros comerciais o desejo de tocar um "sports bar" com apostas online, mas em uma plataforma própria sediada na Ásia. O estabelecimento funcionaria em Botafogo, em um imóvel onde já existia uma casa de pôquer. Contudo, a bet própria nunca chegou a ser esboçada concretamente.
Em 12 de dezembro de 2023, Crespo questionou os sócios João Rachid e Antônio Wanderler Júnior sobre a empreitada, citando valores de investimento. "Vocês querem abrir um bet? Uma casa de aposta? 25 mil euros. R$ 150 mil. Isso é outro caminho", disse o advogado nas mensagens apresentadas no tribunal.
Alertas sobre controle do jogo ilegal
Wanderler, segundo as mensagens exibidas no júri, alertou que Crespo deveria ter autorização da contravenção para transformar o projeto em realidade. "Qualquer jogo que é explorado no RJ tem dono. Você tem que pagar um pedágio aí, para a informalidade, para essas famílias aí. Não tem escapatória", disse o então sócio durante conversa sobre o sports bar de Botafogo.
O parceiro complementou: "E outra, só pode funcionar se 'os caras' deixarem, se você tiver autorização desse pessoal." João Rachid, por sua vez, elogiou o conceito do bar de esportes com apostas online, mas desaconselhou firmemente a ideia de uma bet própria. "Cara, abrir uma bet? Hoje é uma tarefa muito complicada, porque precisa de um financiador, irmão."
Empolgação e confiança do advogado
Apesar dos alertas, Rodrigo Crespo demonstrava empolgação com o projeto e acreditava que teria caminho livre para implementá-lo. Segundo suas mensagens, ele não considerava necessário negociar com bicheiros sobre o empreendimento em Botafogo. "O bom é que a gente não precisa falar com bicheiro nenhum. Ele tem o padrinho dele, e fala com ele diretamente", afirmou Crespo em comunicação exibida durante o julgamento.
Em 2023, os pontos de máquinas caça-níqueis e jogo do bicho da Zona Sul e parte da Zona Norte do Rio haviam mudado das mãos de Bernardo Bello para o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho. Na época, Adilson estava, segundo o Ministério Público e a Polícia Civil, junto com Rogério Andrade e Vinícius Drummond na formação de uma nova cúpula do jogo do bicho.
Motivação do crime e julgamento em andamento
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) acredita que o interesse de Crespo em entrar no mercado de apostas foi a motivação principal para seu homicídio, cometido em plena luz do dia em 26 de fevereiro de 2024. O advogado foi atingido pelas costas por um atirador que ainda não foi identificado pelas investigações.
O julgamento em curso levará ao júri popular três acusados:
- Leandro Machado da Silva (Cara de Pedra): policial militar que, segundo as investigações, providenciou os carros usados no crime;
- Cezar Daniel Mondego de Souza (Russo): apontado como responsável por monitorar a vítima;
- Eduardo Sobreira de Moraes: identificado pela polícia como responsável por seguir os passos de Rodrigo, dirigindo o carro para Cezar enquanto acompanhavam a movimentação da vítima antes do assassinato.
Os três tornaram-se réus no processo em abril de 2024, quando a denúncia do Ministério Público foi aceita. Na decisão, Leandro Machado, que é PM, foi afastado do cargo. As investigações da Delegacia de Homicídios da Capital indicam que os criminosos já estavam monitorando Rodrigo Crespo desde 5 de outubro de 2023, com anotações das placas de seus veículos encontradas nos celulares de um dos investigados.
Após o debate entre o MPRJ e as defesas dos réus, os sete jurados deliberarão sobre a sentença, encerrando um caso que expõe as complexas relações entre negócios legais, apostas online e o controle do jogo ilegal no Rio de Janeiro.



