Nova espécie de planta com pelos dourados é descoberta na Mata Atlântica de Cunha, SP
Planta com pelos dourados descoberta em Cunha, SP

Nova espécie de planta com pelos dourados é descoberta na Mata Atlântica de Cunha, SP

Em meio à neblina densa e ao verde exuberante da Mata Atlântica, um brilho dourado capturou a atenção de pesquisadores durante uma expedição na trilha do Rio Bonito, localizada no Parque Estadual da Serra do Mar, em Cunha, interior de São Paulo. O que inicialmente parecia um simples detalhe na paisagem revelou-se um tesouro botânico inédito para a ciência: a Myrcia barbata, uma nova espécie de planta descrita oficialmente em dezembro de 2025.

Características únicas da planta barbuda

A Myrcia barbata é uma pequena árvore ou arbusto que atinge entre 3 e 4 metros de altura. Seu nome, derivado do latim barbata, que significa com barba, refere-se diretamente à densa camada de pelos dourados que recobre seus ramos, folhas jovens e botões florais. Segundo Adriano Maruyama, engenheiro florestal e doutor em Botânica envolvido na descoberta, essa característica torna a planta inconfundível na floresta.

Ao vivo, a planta parece que está vestindo uma espécie de manto dourado na mata. Os pelos podem auxiliar na proteção térmica, mas sua função principal é provavelmente a proteção contra perda excessiva de água e talvez contra a radiação UV intensa em altitudes elevadas, explicou Maruyama.

Parentesco com frutas populares e diferenciais botânicos

A nova espécie pertence à família Myrtaceae, a mesma da jabuticaba, da goiaba, da pitanga e do eucalipto. Como suas primas conhecidas, a Myrcia barbata possui glândulas de óleo nas folhas, emitindo um cheiro herbáceo suave quando amassadas. Além disso, apresenta folhas discolor, com a parte superior verde-escura e a inferior amarelada, e flores que nascem em grupos de apenas três, diferindo dos grandes cachos observados em outras espécies do gênero.

Processo de descoberta e raridade alarmante

A descoberta ocorreu durante expedições de campo realizadas entre 2019 e 2023, com o momento decisivo em novembro de 2021. Confirmar que se tratava de uma espécie nova exigiu um minucioso jogo dos sete erros científico, envolvendo comparações com centenas de amostras em herbários nacionais e internacionais. A Myrcia barbata é considerada extremamente rara, com apenas dois indivíduos encontrados até agora, vivendo acima de 1.100 metros de altitude em uma área restrita.

Eventos climáticos extremos, como geadas fortes e enchentes, são uma grande ameaça para populações pequenas e restritas, alertou Maruyama, destacando a vulnerabilidade da espécie. A planta depende de um ambiente específico e preservado, coberto por musgos, líquens e bromélias, típico de florestas nubladas úmidas.

Importância para a conservação da Mata Atlântica

A descoberta reforça que a Mata Atlântica, mesmo em regiões populosas como São Paulo, ainda abriga segredos desconhecidos. A área de Cunha, com seu relevo acidentado e clima peculiar, representa uma lacuna no conhecimento florístico. Para Maruyama, a Myrcia barbata serve como um lembrete valioso da rica biodiversidade brasileira, que vai muito além da Amazônia.

A Myrcia barbata nos lembra que a Mata Atlântica, mesmo fragmentada, ainda abriga espécies únicas e desconhecidas. Protegê-la é valorizar o que temos aqui no nosso quintal paulista, que é um hotspot de biodiversidade mundial, concluiu o pesquisador. A pesquisa contou com a colaboração de cientistas da Universidade Federal de São Carlos, Universidade de Michigan e do Jardim Botânico Real de Kew.