Guavira: Fruto símbolo do Cerrado vira estratégia de preservação ambiental em MS
Um estudo pioneiro realizado ao longo de 17 anos em Mato Grosso do Sul está transformando a forma como a guavira, fruta símbolo do Cerrado sul-mato-grossense, é produzida no Estado. A pesquisa, coordenada pela Agência de Desenvolvimento Rural (Agraer), tem como objetivo ampliar a produção de mudas, organizar o cultivo da fruta nativa e reduzir significativamente a pressão sobre as áreas naturais do bioma Cerrado.
Valor nutricional superior e ameaça de extinção
A guavira, também conhecida como gabiroba em outras regiões do Brasil, é reconhecida por seu excepcional valor nutricional. De acordo com a pesquisadora da Agraer, Ana Ajala, a fruta apresenta índices nutricionais superiores a culturas mais comuns.
"A guavira tem grau Brix maior até mesmo que o da uva, o que indica alto nível de doçura. Além disso, possui mais vitamina C do que a laranja", explica a especialista.
Com o avanço da pecuária e das lavouras de soja e milho, as áreas naturais do Cerrado foram drasticamente reduzidas, impactando diretamente a ocorrência da espécie. Diante desse cenário preocupante, a Agraer iniciou, em 2007, estudos voltados para a reprodução da planta, produção de mudas e criação de modelos de cultivo que possam ser adotados por produtores rurais.
Produção de mudas como base do projeto
A propagação da espécie é o foco principal da pesquisa. A equipe da Agraer desenvolveu métodos simples para facilitar a produção em viveiros rurais e comunitários.
"A gente trabalha produzindo mudas de guavira e ensinando produtores e comunidades tradicionais a fazerem suas próprias mudas. Esse é o principal resultado do nosso trabalho. Se queremos preservar a guavira, precisamos produzir mudas", afirma Ana Ajala.
A agroflorestora Elida Aivi, moradora da Serra da Bodoquena em Mato Grosso do Sul, é uma das responsáveis pelos trabalhos de difusão da cultura.
"Aqui eu trabalho com várias sementes, várias plantas do cerrado, em especial a guavira. E além de ser a guavira muito especial, eu trabalho com a maioria das minhas plantas do viveiro, com frutas, porque eu vejo que tá faltando muita fruta para nossos animais", relata.
O processo de produção de mudas segue etapas específicas:
- Retirada da polpa da fruta e separação das sementes
- Plantio das sementes em recipientes com mistura de terra e areia
- Colocação de duas sementes em cada recipiente para aumentar as chances de germinação
- Manutenção das mudas no viveiro até atingirem o tamanho ideal para plantio em campo
Segundo os pesquisadores, as plantas podem levar até três anos para começar a produzir frutos. Mesmo assim, apresentam boa adaptação quando cultivadas junto a outras espécies nativas e culturas agrícolas, em sistemas agroflorestais.
Incentivo ao cultivo organizado e cadeia produtiva
Com os resultados do estudo, a Agraer passou a incentivar o cultivo planejado da guavira como alternativa sustentável à coleta em áreas nativas. A proposta é incluir a fruta em projetos de restauração ambiental e em propriedades rurais interessadas em diversificar a produção.
"A ideia é levar esse conhecimento para diferentes regiões do Estado. Não podemos continuar apenas coletando a guavira nativa. Se isso acabar, não teremos mais alternativa", alerta a pesquisadora.
O projeto também busca estruturar uma cadeia produtiva para ampliar o uso da fruta na alimentação, em pequenos empreendimentos e em atividades ligadas ao turismo rural.
Pesquisa conecta preservação e geração de renda
O trabalho desenvolvido pela Agraer tem impactos sociais e ambientais significativos. Ao estimular o cultivo da guavira, a pesquisa contribui para a conservação da espécie e cria novas possibilidades de renda para produtores rurais.
"A partir do momento em que as pessoas veem casos de sucesso com a guavira, percebem que é um fruto local, de fácil cultivo e com grande potencial. Isso estimula novos produtores a aderirem", destaca Ana Ajala.
Com a continuidade dos estudos e a ampliação das parcerias, a expectativa é fortalecer o cultivo da guavira em Mato Grosso do Sul e garantir a preservação da espécie no Cerrado, unindo desenvolvimento rural e conservação ambiental.