Tarântula amazônica infectada por fungo 'Cordyceps' é descoberta em reserva de Manaus
Uma expedição científica realizada na Amazônia brasileira revelou um achado inédito e de grande relevância para a biologia: pela primeira vez, pesquisadores identificaram uma tarântula infectada pelo fungo Cordyceps caloceroides. O registro histórico foi feito em janeiro deste ano, na Reserva Ducke, uma área de preservação ambiental localizada nos arredores de Manaus, capital do Amazonas.
Colaboração internacional na descoberta
A descoberta contou com a participação de uma equipe multinacional de cientistas, incluindo pesquisadores brasileiros e estrangeiros, com destaque para especialistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O fungo pertence ao mesmo gênero que ficou popularmente conhecido como o "fungo de The Last of Us", em referência à série da HBO que retrata um cenário fictício de apocalipse. No entanto, fora da ficção, o Cordyceps não representa risco para humanos, pois na natureza ele ataca exclusivamente insetos e outros artrópodes.
O exemplar infectado foi encontrado durante as atividades de campo do Tropical Mycology Field Course, um curso internacional organizado pelo biólogo João Paulo Machado de Araújo, professor da Universidade de Copenhague. A descoberta foi realizada por Lara Fritzsche, estudante de Ciências Ambientais da instituição dinamarquesa, durante a coleta de amostras na densa floresta amazônica. A expedição reuniu especialistas do Brasil e da Dinamarca, com apoio fundamental do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Repercussão científica e importância do achado
O caso ganhou ampla repercussão após ser divulgado pelo micologista Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, professor do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas da UFSC e coordenador do grupo de pesquisa MIND.Funga. Segundo o pesquisador, embora fungos do gênero Cordyceps possam ser encontrados em outros biomas brasileiros, como a Mata Atlântica, a ocorrência em uma tarântula amazônica tem grande relevância científica.
"Estamos lidando com condições ambientais completamente diferentes, com espécies específicas de aranhas e fungos que apresentam níveis muito altos de especialização", explicou Drechsler-Santos em entrevista ao portal A Crítica. Ele ressalta que, em muitos casos, a relação entre fungo e hospedeiro é extremamente restrita. "Há situações em que uma espécie de fungo parasita apenas uma única espécie de inseto. Essas interações podem ter se estabelecido há cerca de 50 milhões de anos. Em aracnídeos, registros como esse são raros e difíceis de encontrar."
Mecanismos de infecção e avanços na pesquisa
Apesar de se saber que o Cordyceps se espalha por meio de esporos, os mecanismos exatos de infecção em aranhas ainda são pouco compreendidos pela ciência. "Muito provavelmente os esporos entram em contato com o corpo da aranha ou com o solo por onde ela circula e acabam se instalando. A partir daí, surgem muitas perguntas que a ciência ainda precisa responder", afirmou o professor.
Para o pesquisador, a popularidade da série The Last of Us teve um efeito positivo ao despertar o interesse do público por fungos. "A série ajudou a chamar atenção para um grupo de organismos que sempre foi fundamental para a humanidade, mas que por muito tempo foi negligenciado pela ciência e pelos investimentos em pesquisa", avaliou. "Encontrar e documentar uma espécie rara como essa é extremamente emocionante. É a partir desses registros que o conhecimento científico avança", concluiu Drechsler-Santos.
Esta descoberta destaca a importância da preservação da biodiversidade amazônica e abre novas fronteiras para estudos sobre interações ecológicas complexas, reforçando o papel crucial da pesquisa científica no Brasil.