Greve de ônibus em São Luís completa quarto dia e afeta milhares de passageiros
Greve de ônibus em São Luís chega ao quarto dia

Greve de ônibus em São Luís completa quarto dia e afeta milhares de passageiros

A paralisação dos rodoviários da empresa Expresso Rei de França, antiga 1001, chegou ao quarto dia consecutivo nesta terça-feira (27) na Grande São Luís. Mais de 160 ônibus que atendem 15 linhas do transporte urbano e seminurbano permanecem sem circular, causando sérios prejuízos aos usuários que enfrentam dificuldades diárias para se deslocarem pela cidade.

Bairros afetados e início da paralisação

Entre os bairros mais impactados pela interrupção do serviço estão Ipem Turu, Parque Vitória, Ribeira, Vila Isabel Cafeteira, Pedra Caída, Recanto Verde e Forquilha. A greve teve início na noite da última sexta-feira (23), em protesto contra o atraso no pagamento de salários e benefícios trabalhistas.

Embora parte dos trabalhadores tenha começado a receber seus pagamentos no domingo (25), permitindo que alguns coletivos voltassem a circular na manhã de segunda-feira (26), a situação se reverteu rapidamente. Os rodoviários que já haviam sido pagos decidiram retornar à greve em solidariedade aos colegas que ainda aguardam o recebimento de seus direitos.

Motivações da greve e posicionamento sindical

De acordo com o presidente do Sindicato dos Rodoviários do Maranhão, Marcelo Brito, o movimento grevista não foi organizado pela entidade sindical, mas sim surgiu espontaneamente entre os funcionários da empresa. As principais reivindicações incluem:

  • Pagamento do décimo terceiro salário atrasado
  • Regularização do tíquete-alimentação referente ao mês de dezembro
  • Depósito do adiantamento salarial de janeiro, que deveria ter ocorrido no dia 20 deste mês

Segundo Brito, a circulação total da frota de ônibus só será retomada quando houver a regularização completa de todos os salários em atraso, condição que ainda não foi atendida pela empresa.

Histórico recente de paralisações

Esta é a terceira paralisação dos rodoviários do Expresso Rei de França nos últimos dois meses, todas motivadas por atrasos salariais. A cronologia das greves recentes mostra um padrão preocupante:

  1. Primeira greve: Iniciada em 14 de novembro do ano passado, durou 12 dias e terminou em 26 de novembro após determinação do Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Região (TRT-MA)
  2. Segunda paralisação: Ocorreu em 24 de dezembro, véspera do Natal, com 162 veículos parados, sendo resolvida apenas no dia 28 de dezembro após acordo entre categoria e SET
  3. Terceira greve: A atual, iniciada em 23 de fevereiro e que já completa quatro dias de duração

Impasses financeiros e responsabilidades

Documentos obtidos pela TV Mirante revelam um impasse significativo entre o Sindicato das Empresas de Transporte (SET) e a Prefeitura de São Luís em relação ao pagamento de subsídios. O SET cobra da prefeitura R$ 6.169.659,30 referentes ao subsídio de dezembro, enquanto o município liberou apenas R$ 4.746.862,44, uma diferença de aproximadamente R$ 1,4 milhão.

A redução no valor ocorreu porque a Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT) aplicou uma punição às empresas após constatar que, em dezembro do ano passado, apenas 75% da frota mínima de ônibus estava em operação nas ruas da capital.

Convenção Coletiva e risco de greve geral

Além dos problemas de pagamento, outro fator que aumenta a tensão no sistema de transporte público de São Luís é a não realização da Convenção Coletiva de Trabalho para o ano de 2026. O Sindicato dos Rodoviários encaminhou uma proposta ao SET em novembro de 2025, mas até o momento não houve avanços significativos nas negociações.

Segundo Marcelo Brito, a única contraproposta apresentada pela patronal foi a criação de convenções coletivas distintas para trabalhadores do sistema urbano e seminurbano, o que foi rejeitado pelo sindicato. Caso não haja acordo, os rodoviários avaliam a possibilidade de expandir a paralisação para todo o sistema de transporte público da Grande São Luís.

Especialista aponta necessidade de diversificação modal

Em entrevista à TV Mirante, a doutora em Transportes Zuleide Feitosa avaliou que a crise atual expõe a necessidade urgente de ampliar os investimentos em modais alternativos aos ônibus. Para a especialista, a diversificação da rede de transportes reduziria significativamente os impactos sofridos pela população durante períodos de paralisações constantes.

"A gestão pública falhando no repasse do subsídio, o concessionário falhando na oferta de serviço. Esse conflito por si mesmo já estabelece que a gestão pública está com muitas deficiências para gerir os problemas que ela tem, inclusive de transportes", afirmou Feitosa.

A especialista destacou que a implantação de alternativas como BRTs e VLTs poderia fortalecer o transporte coletivo na capital maranhense, ajudando a reduzir a recorrência de crises marcadas por greves e instabilidade no serviço público essencial.