Crise no transporte público do Rio deixa passageiros em situação crítica
Os usuários do transporte coletivo na cidade do Rio de Janeiro enfrentam uma situação cada vez mais desesperadora, especialmente aqueles que dependem das linhas que conectam a Zona Norte à Zona Sul. Em meio a esta crise, as viações Auto Ônibus e Real têm até esta sexta-feira, 30 de junho, para regularizar a situação de mais de 200 ônibus que circulam de forma irregular.
Frota em situação precária e risco iminente de rebocamento
Dos 200 ônibus da Viação Auto Ônibus, apenas 16 estão em situação regular perante as autoridades. Já a Viação Vila Isabel, que possui 50 veículos, não realizou vistorias em nenhum deles no prazo de um ano, conforme exigido pela legislação. A prefeitura do Rio alertou que, a partir deste sábado, 31 de junho, os coletivos irregulares poderão ser rebocados e as empresas responsáveis multadas.
Esta situação tem impactado diretamente a vida de milhares de cidadãos que precisam se deslocar diariamente para o trabalho. Passageiros que residem em bairros da Zona Norte e trabalham na Zona Sul têm sofrido com a escassez de linhas em operação, enfrentando esperas intermináveis nos pontos de ônibus.
Cenário caótico nos pontos de embarque e relatos de humilhação
Uma equipe de reportagem esteve, na manhã desta sexta-feira, no ponto de ônibus da Leopoldina, na Zona Central do Rio, e flagrou dezenas de pessoas aguardando por mais de uma hora por um coletivo. A Linha 460, que liga São Cristóvão ao Leblon, praticamente desapareceu do local, agravando ainda mais o problema.
Mônica, uma passageira que trabalha no Humaitá, esperou mais de 1 hora e 20 minutos por um ônibus da Linha 463, que faz o trajeto de São Cristóvão e Terminal Gentileza até Copacabana. Sem alternativa, ela acabou desistindo e pediu um carro por aplicativo. "Todo dia é essa correria. Me sinto humilhada, porque eles acham que a gente anda de graça. A gente não anda de graça. Merecia ter um pouco mais de respeito", desabafou a usuária.
O mesmo cenário se repetiu para as linhas 112 e 110 na quinta-feira, 29 de junho, segundo relatos de passageiros no Terminal Gentileza. A sensação de abandono e desrespeito tem sido uma constante entre os usuários do sistema.
Novas linhas criadas, mas problemas de comunicação persistem
Na segunda-feira, 26 de junho, a prefeitura anunciou a criação da Linha 475, que faria o percurso do Metrô São Cristóvão até o Leblon. No entanto, essa nova linha não passa pela Leopoldina, deixando de atender os passageiros que precisam acessar a Zona Sul pela Avenida Francisco Bicalho.
Além disso, os ônibus que saem do Terminal Gentileza em direção à Zona Sul costumam deixar o terminal já lotados, passando direto pelo ponto da Leopoldina sem parar. Esta semana, a administração municipal também anunciou a criação de outras duas linhas:
- Linha 111 – Central do Brasil x Leblon
- Linha 014 – Paula Matos x Central do Brasil
Para Licinio Machado Rogério, presidente da Federação das Associações de Moradores do Município do Rio e integrante do Conselho Municipal de Transporte, a abertura das novas linhas é uma tentativa da prefeitura de atender à demanda. Porém, ele alerta: "A prefeitura tenta solucionar o problema, mas a consulta aos passageiros é fundamental. E a comunicação em relação às novas linhas também precisa ser mais efetiva. Criam-se novas linhas, novos trajetos, e as pessoas não sabem mais com qual linha podem contar".
Prazo final para regularização e crise nas empresas
Em reunião com o Conselho Municipal de Transportes, o subsecretário da Secretaria Municipal de Transportes, Guilherme Braga, informou que o prazo para vistoria da frota das duas empresas termina nesta sexta-feira. A partir de sábado, os ônibus que circularem sem documentação regularizada poderão ser rebocados.
Segundo Licinio Rogério, a situação exige a intervenção do Consórcio Intersul, responsável pelas empresas Auto Ônibus e Vila Isabel. "Vila Isabel e Real já são empresas deficitárias, não tem dinheiro para pagar os funcionários. Às vezes, falta até recurso para o combustível. E o consórcio que deveria assumir isso, não faz, por uma decisão interna deles de não querer se meter nessa situação", explicou.
A TV Globo recebeu informações sobre demissões de motoristas das duas empresas no final desta semana. Um funcionário, que preferiu não se identificar, relatou problemas graves: "Covardia o que a empresa fez com a gente, funcionários da Vila Isabel. Estão mandando todo mundo embora, trabalhamos o mês todo. Nosso vale-alimentação já está dois meses atrasado. Esperaram a gente chegar até o final do mês para dispensar a gente e não pagar o nosso salário".
Posicionamento das autoridades e ajustes no sistema
Procurado pela reportagem, o sindicato das empresas de ônibus, Rio Ônibus, afirmou que "o Consórcio Intersul está seguindo o planejamento operacional determinado pela SMTR". Já a Secretaria Municipal de Transportes do Rio declarou que os quatro consórcios foram oficiados sobre a necessidade de realizar as vistorias dos ônibus no prazo determinado.
A secretaria também informou que vem implementando ajustes no sistema, incluindo a criação de cinco novos serviços:
- Linha 162 – Terminal Gentileza – Leblon
- Linha 319 – Terminal Alvorada – Central do Brasil
- Linha 160 – Terminal Gentileza – Leblon, via Túnel Rebouças
- Linha 475 – Metrô São Cristóvão – Leblon
- Linha 111 – Central do Brasil – Leblon
Além disso, foram realizados ajustes nos itinerários das linhas 109, 162 e 456, visando ampliar a cobertura do serviço e tornar o atendimento mais eficiente. A SMTR reforçou que mantém relação contratual com os consórcios, não diretamente com as empresas individuais, e que os consórcios têm a obrigação de garantir a continuidade do serviço independentemente da situação das empresas associadas.
A crise no transporte público carioca evidencia a urgência de medidas efetivas que garantam o direito básico à mobilidade urbana, enquanto milhares de passageiros continuam enfrentando diariamente situações de estresse e incerteza em seus deslocamentos essenciais.