Michelle Bolsonaro endossa Tarcísio e expõe racha no bolsonarismo sobre sucessão
Michelle Bolsonaro planta dúvida sobre Flávio e apoia Tarcísio

Um simples compartilhamento nas redes sociais da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro reacendeu publicamente uma disputa que fervia nos bastidores do bolsonarismo. Na segunda-feira, 13 de janeiro de 2026, ela repostou um vídeo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, discursando com tom claramente presidencial. O gesto, longe de ser casual, foi interpretado por aliados e analistas como um endosso político direto e uma "semente de dúvida" sobre a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O Discurso que Soou como Campanha Nacional

O conteúdo compartilhado por Michelle Bolsonaro é central para entender a movimentação política. No vídeo, Tarcísio de Freitas não fala de obras em São Paulo ou pautas regionais. Em vez disso, ele defende uma agenda macroeconômica de cunho nacional, com pontos como redução de gastos públicos, controle da inflação, queda dos juros, diminuição de impostos e abertura da economia.

"Não é um discurso de quem está se preparando para disputar a reeleição em São Paulo", avalia o colunista Robson Bonin, do portal Radar, em análise ao programa Ponto de Vista. "O que aparece ali é alguém se qualificando como alternativa ao presidente Lula." A fala do governador ataca diretamente as vulnerabilidades do governo federal, como o aumento de gastos e a pressão fiscal, posicionando-se como a voz de uma oposição programática.

O Contraste com Flávio Bolsonaro e o Vazio de Propostas

Enquanto Tarcísio ocupa espaço midiático e político com um discurso econômico estruturado, o cenário para Flávio Bolsonaro parece mais nebuloso. Apesar de ser o único que se lançou oficialmente como pré-candidato à Presidência, o senador carece de um programa claro de governo.

Analistas apontam que Flávio repete uma estratégia semelhante à do pai em 2018, baseada mais em polêmica e barulho político do que em formulação de propostas. Um exemplo recente foi a declaração de que nomearia o irmão, Eduardo Bolsonaro, para o comando do Itamaraty, uma fala que foi mal recebida até entre correligionários e vista como um erro tático.

"O contraste é evidente", resume Bonin. "De um lado, Tarcísio com agenda; do outro, Flávio com ruído."

Um Clã Dividido e o Futuro da Sucessão

A ação de Michelle Bolsonaro tornou incontornável uma divisão que já existia nos círculos próximos ao ex-presidente. Uma parcela significativa do bolsonarismo, incluindo líderes religiosos e aliados históricos, enxerga no governador paulista um nome mais competitivo e preparado para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva em uma eventual disputa eleitoral.

O compartilhamento do vídeo, portanto, foi mais do que um gesto de apoio. Foi um sinal político potente, plantando publicamente a dúvida sobre quem deve herdar a liderança do movimento. "Mostra que não há consenso, que o clã está dividido e que essa disputa interna ainda vai render novos capítulos", projeta o colunista.

Com o fim do recesso parlamentar e a retomada do calendário político, espera-se que esses sinais internos se tornem mais frequentes e explícitos. A sucessão de Jair Bolsonaro no comando do bolsonarismo segue em aberto, e cada movimento, especialmente de figuras centrais como Michelle, pesa decisivamente no tabuleiro político que se desenha para 2026.