Mais de 1 bilhão de usuários de IA em 3 anos: como a tecnologia remodela o mundo
IA atinge 1 bilhão de usuários e transforma economia e sociedade

A Inteligência Artificial (IA) não pediu licença para entrar em nossas vidas. Nos últimos três anos, mais de 1 bilhão de pessoas se tornaram usuárias dessa tecnologia, segundo um levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Impulsionada por investimentos massivos, ela se transformou na base invisível que está reorganizando a economia, o mercado de trabalho e a estrutura da sociedade em escala global.

O motor invisível: investimento em infraestrutura

Para compreender a força por trás dessa revolução, é preciso olhar para os números. Em 2025, o investimento global em IA atingiu a marca histórica de US$ 202 bilhões, um aumento impressionante de 75% em relação ao ano anterior. Contudo, o ponto crucial não é apenas o volume de capital, mas seu destino.

Uma parcela colossal desses recursos não está sendo direcionada para aplicativos ou interfaces, mas sim para a infraestrutura que sustenta tudo. Quando os gigantes da tecnologia planejam aplicar entre US$ 400 e 527 bilhões em investimentos de capital até 2026, eles estão construindo os equivalentes modernos de estradas e usinas: centros de dados, redes de comunicação, chips especializados e fontes de energia.

Essa mudança de foco é fundamental. A IA deixa de ser um produto isolado e se torna um piso tecnológico, uma utilidade básica sobre a qual outros serviços e decisões são construídos. E uma vez que essa infraestrutura é erguida, ela precisa ser utilizada, criando um ciclo virtuoso de adoção.

O ciclo de feedback que acelera a mudança

A dinâmica que se estabelece segue uma lógica poderosa e conhecida na análise de sistemas: o ciclo de feedback de reforço. Mais investimento gera infraestrutura melhor; infraestrutura melhorada aumenta a capacidade e reduz custos; custos mais baixos facilitam a adoção; a adoção em massa cria novos casos de uso e retorno financeiro; e esse retorno atrai ainda mais investimento.

Essa "bola de neve" tecnológica já começa a mostrar seus efeitos na economia real. Estimativas para o segundo trimestre de 2025 indicam que a IA contribuiu com entre 1,1 e 1,3 ponto percentual para o crescimento do PIB dos Estados Unidos. Quando uma tecnologia impacta indicadores macroeconômicos dessa magnitude, ela deixa definitivamente de ser um assunto de nicho.

Impacto no mercado de trabalho e no sistema jurídico

O mercado de trabalho é uma das camadas que mais evidencia a inevitabilidade dessa transformação. Projeções do Fórum Econômico Mundial sugerem que, até 2030, cerca de 92 milhões de empregos podem ser deslocados, enquanto 170 milhões de novas posições seriam criadas. O saldo líquido é positivo, mas o deslocamento é real e exige uma reorganização profunda de tarefas e competências.

O mercado já precifica essa nova realidade. Dados de consultorias revelam que os salários estão crescendo duas vezes mais rápido em indústrias mais expostas à IA, e profissionais com habilidades na área podem receber um prêmio salarial superior a 40%.

No Brasil, e em especial na advocacia, essa transição tende a ser acelerada pelo ambiente já digitalizado. Com processos eletrônicos, peticionamento online e um contencioso de massa que repete padrões, a IA surge como uma camada natural para aumentar a produtividade. Sua atuação vai desde organizar documentos e mapear precedentes até identificar inconsistências e sugerir estruturas para peças processuais.

Essa mudança pressiona o mercado jurídico em duas frentes: os clientes corporativos passam a exigir mais previsibilidade e velocidade, enquanto os escritórios são cobrados pela clareza estratégica e gestão de risco, e não apenas pelo volume de horas faturadas.

Desafios e a inevitabilidade das escolhas

Reconhecer a força inexorável da IA, no entanto, não significa romantizá-la. A transformação traz tensões significativas. Existem evidências que associam o investimento em IA ao aumento da desigualdade de renda. Além disso, 2,6 bilhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso à internet, o que pode aprofundar uma divisão digital perigosa. Há também um abismo entre países ricos e em desenvolvimento na capacidade de criar regulações adequadas.

Estas são questões reais e urgentes. O ponto central, porém, é que a escala do movimento torna o debate e as decisões sobre esses temas igualmente inevitáveis. A questão não é se vamos lidar com a IA, mas como vamos fazê-lo.

O mundo está injetando recursos colossalmente rápidos em uma infraestrutura demasiadamente robusta para que a IA permaneça como uma opção. Quando uma tecnologia se torna estrutural, surge um efeito conhecido: quem se adapta cedo ganha margem de manobra; quem se adapta tarde opera sob pressão e com menos opções.

A boa notícia é que a inevitabilidade da adoção não determina o resultado final. Os mesmos ciclos que aceleram a mudança podem ser influenciados por decisões humanas – sobre implementação empresarial, capacitação individual, regulação institucional e criação de contrapesos sociais. Mas, para fazer escolhas acertadas, o primeiro passo é enxergar claramente a magnitude da transformação que já está em curso. A IA deixou de ser um tema de tecnologia e se tornou uma questão de sistema – econômico, social e jurídico. E o sistema já está em movimento.