IA na advocacia: como a tecnologia gera novos empregos e expande o mercado
IA como alavanca de inovação no setor jurídico

A inteligência artificial (IA) está longe de ser apenas uma ferramenta para cortar custos e reduzir despesas. Um artigo publicado pela VEJA em janeiro de 2026, escrito por Ticiano Figueiredo, apresenta um caminho virtuoso onde a tecnologia funciona como uma poderosa alavanca para a inovação. Esse movimento cria novos mercados, eleva a produtividade humana e, de forma surpreendente, gera empregos de maior valor agregado.

Do corte de custos à criação de valor: um novo ciclo

A narrativa comum que reduz a IA a um instrumento de demissões e redução de honorários é considerada limitada e pobre. O cenário virtuoso, em contraste, surge quando a tecnologia é aplicada para gerar valor novo. Isso significa abrir mercados inexplorados, aumentar a produtividade sem pressionar os profissionais e transformar o tempo economizado em qualidade, estratégia e, no final, em salários melhores.

Esse processo pode ser entendido como um ciclo positivo de causa e efeito. Mais investimento em IA leva a uma adoção maior, que por sua vez eleva a produtividade humana. Com maior produtividade, os lucros aumentam e, quando reinvestidos, alimentam ainda mais o investimento em tecnologia. A chave aqui é que a produtividade é humana: a IA atua como uma alavanca, e não como um substituto, liberando os profissionais de tarefas repetitivas para focarem em julgamento, criatividade e decisão estratégica.

Exemplos concretos da IA transformando a advocacia

No setor jurídico, essa transformação já é visível e palpável. Serviços que praticamente não existiam antes estão surgindo, redefinindo o papel do advogado e ampliando o mercado.

O autoatendimento legal com IA é um caso emblemático. Empresas passaram a oferecer portais onde o cliente descreve seu problema e recebe respostas preliminares e roteiros de ação gerados por inteligência artificial. Isso não elimina o advogado, mas muda sua função: ele deixa de ser um gargalo na triagem inicial para se concentrar em questões que exigem técnica e estratégia avançadas.

Outro exemplo significativo é a análise preditiva de litígios. Ao cruzar milhões de decisões judiciais para estimar probabilidades, a IA transforma o diálogo com o cliente. A conversa deixa de ser baseada apenas em opinião e experiência para se tornar uma decisão embasada em dados, melhorando o planejamento e reduzindo desperdícios.

Além disso, agentes autônomos estão sendo usados em rotinas como revisão contratual e due diligence, seguindo sequências complexas de coleta, análise e geração de rascunhos. Surgem também escritórios AI-native, desenhados do zero com a IA no centro do fluxo de trabalho, o que permite novos modelos de negócio, como planos de assinatura e produtos jurídicos escaláveis para pequenas e médias empresas.

Números que comprovam a tendência e o surgimento de novas profissões

Os dados recentes ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo a Thomson Reuters, a adoção de IA generativa em organizações jurídicas quase dobrou em um ano, saltando de 14% em 2024 para 26% em 2025. Mais revelador: 78% dos profissionais acreditam que a IA será central em seu trabalho nos próximos cinco anos.

O mesmo relatório indica que profissionais que usam IA podem economizar até cinco horas por semana, o que equivale a um valor anual de US$ 19 mil por pessoa. Para os setores jurídico e contábil dos EUA combinados, o impacto potencial chega a US$ 32 bilhões por ano. O mercado de legal tech, avaliado em US$ 31,6 bilhões em 2024, deve ultrapassar a marca de US$ 50 bilhões até 2027, de acordo com a Gartner.

Junto com essa expansão, novas funções estão surgindo, representando uma expansão do ecossistema e não uma simples substituição. Cargos como engenheiro de conhecimento jurídico, designer de processo legal, consultor de ética e governança de IA e conselheiro jurídico de produto se tornam cada vez mais comuns.

Construindo o cenário virtuoso: a intenção é o que importa

A pergunta crucial é: o que garante que esse seja um ciclo virtuoso e não apenas uma maquiagem tecnológica? A resposta está no desenho do ciclo e na intenção por trás do uso da ferramenta.

Se a IA for usada apenas para reduzir o trabalho humano a tarefas mecânicas, o ciclo se quebra. No entanto, se for utilizada para liberar o potencial humano para atividades de maior valor, o ciclo se fecha e se reforça. Na prática, isso exige atitudes fundamentais:

  • Tratar a IA como parte de um sistema de qualidade, e não como um atalho.
  • Criar rotinas sólidas de revisão e responsabilidade humana.
  • Treinar as pessoas para usar a ferramenta e entender seus limites.
  • Construir modelos de cobrança que premiem o valor entregue, e não apenas as horas gastas.

A IA é um amplificador. Ela amplifica a intenção do sistema em que é inserida. Em um sistema orientado para a inovação e expansão de mercado, ela se torna uma alavanca para salários melhores, novas carreiras e serviços mais acessíveis. O cenário virtuoso não acontece por acidente; ele é uma construção consciente que depende das decisões humanas.

O recado do artigo é claro: existe um caminho onde a inteligência artificial aumenta a prosperidade coletiva. Esse caminho começa quando se para de perguntar "como cortar mais?" e se passa a questionar "o que posso criar agora que antes era inviável?".