Record TV lança comentarista de futebol 100% IA e reacende debate ético
Comentarista de futebol 100% IA gera polêmica na Record

A televisão brasileira deu mais um passo polêmico na era digital. No último domingo, 11 de janeiro de 2026, a Record TV apresentou ao público um novo comentarista esportivo durante o programa Esporte Record. A grande novidade, porém, não estava no conteúdo das análises, mas em quem as proferia: Toninho da resenhIA é um personagem criado 100% por inteligência artificial, sem intervenção humana direta em suas opiniões.

O "problema é dele": como funciona o comentarista IA

O apresentador Cleber Machado foi quem introduziu a novidade aos telespectadores, deixando claro o caráter autônomo do novo colega de bancada. Segundo ele, o sistema funciona a partir do fornecimento de dados, perguntas e fatos sobre as partidas. A partir daí, a inteligência artificial processa as informações e gera suas próprias opiniões e análises. "Não tem nenhuma mão humana. A gente coloca os dados, perguntas e fatos, e é ele quem opina. O problema é dele", afirmou Machado, em declaração que se tornou o centro do debate subsequente.

A criação, no entanto, foi recebida com críticas por parte de especialistas e do público. Muitos a classificaram como "tosca", apontando a falta de emoção genuína e a natureza claramente artificial do modelo. A principal preocupação levantada gira em torno da credibilidade e dos riscos éticos de se atribuir opiniões a uma entidade não humana em um espaço tradicionalmente ocupado por jornalistas e comentaristas.

IA na TV: uma tendência em expansão

Apesar da polêmica, o uso de inteligência artificial na programação da TV aberta não é uma estreia absoluta. A própria Record já havia experimentado a tecnologia anteriormente. No reality show A Fazenda, a emissora utilizou animações e até uma versão digital da apresentadora Adriane Galisteu para quadros específicos do programa.

Outras emissoras também exploraram o recurso, muitas vezes com abordagens mais emocionais. Um caso marcante ocorreu no SBT, durante o especial de Natal de A Praça É Nossa no ano passado. A tecnologia foi empregada para criar um encontro simbólico entre Carlos Alberto de Nóbrega e uma versão digital de seu pai, Manoel de Nóbrega, falecido em 1976. A cena, que mostrou pai e filho lado a lado no banco tradicional do programa, culminou em um abraço e foi carregada de simbolismo.

Fora do entretenimento, a IA também foi usada em campanhas publicitárias. Em 2023, um comercial da Volkswagen reuniu, através da tecnologia, a cantora Elis Regina (1945-1982) e sua filha, Maria Rita, para uma performance emocionante de "Como Nossos Pais". Na época, a ação já havia dividido opiniões e acendido alertas sobre os limites desse tipo de aplicação.

O futuro é agora: a promessa da TV 3.0

As iniciativas atuais são apenas um prelúdio do que está por vir. Para 2026, as perspectivas envolvendo tecnologia na televisão aberta são ainda mais ambiciosas. Em agosto de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que regulamenta o padrão TV 3.0, também chamado de DTV+.

O novo sistema promete revolucionar a experiência do telespectador, com um salto significativo na qualidade de imagem (4K e 8K), som imersivo e, principalmente, uma interatividade muito maior entre quem assiste, a programação e a publicidade. A expectativa é que a implementação comece nas grandes capitais brasileiras após a Copa do Mundo de 2026.

O caso do Toninho da resenhIA, portanto, não é um fato isolado, mas um sintoma de uma transformação profunda que está em curso. A discussão sobre os limites éticos, a autenticidade das interações e o futuro das profissões na era da inteligência artificial na mídia está apenas começando e promete se intensificar nos próximos anos.