Nissan Kait: o SUV compacto que evoluiu do Kicks para desafiar Tera, Pulse e Kardian
Nissan Kait: evolução do Kicks para rivalizar com Tera, Pulse e Kardian

Nissan Kait: a renovação estratégica para o segmento de SUVs compactos

O mercado de SUVs compactos no Brasil vive um momento de intensa competição, com lançamentos recentes que elevam o nível de exigência dos consumidores. Diante desse cenário, a Nissan identificou a necessidade urgente de renovar seu modelo de entrada, que antes era representado pelo Kicks. Embora o antigo modelo tenha conquistado boa aceitação, seu projeto demandava uma atualização significativa para enfrentar rivais como o recém-chegado Volkswagen Tera, o já consolidado Fiat Pulse e o Renault Kardian.

Do Kicks ao Kait: uma transição que confundiu o mercado

Inicialmente, a estratégia da Nissan gerou certa confusão entre especialistas e consumidores. O novo Kicks chegou ao mercado com dimensões ampliadas, posicionando-se em uma categoria distinta de SUVs. No entanto, rapidamente ficou evidente que a solução definitiva passaria por um projeto totalmente novo. Assim nasceu o Nissan Kait, um modelo desenvolvido especificamente para intensificar a disputa no segmento de SUVs compactos e que oficialmente aposenta o antigo Kicks.

O lançamento mundial do Kait ocorreu no Brasil, um movimento estratégico que reforça a importância do mercado nacional para a montadora. O SUV será produzido no Complexo Industrial de Resende, localizado no estado do Rio de Janeiro, atendendo não apenas à demanda brasileira, mas também à exportação para mais de 20 países da América Latina.

Design: modernidade com heranças visíveis

A primeira impressão do Nissan Kait é positiva, ainda que não seja exatamente revolucionária. Seu visual moderno desperta curiosidade, embora muitas pessoas tenham a sensação de que "já viram esse carro antes". As linhas do modelo lembram bastante veículos eletrificados de origem chinesa, uma associação quase imediata para quem o observa pela primeira vez.

Na dianteira, a entrada de ar é significativamente menor que a do antigo Kicks, enquanto os faróis superiores são separados do conjunto inferior por uma barra fechada. A traseira apresenta faróis mais afilados e o nome do modelo em destaque na tampa do porta-malas – uma solução estética que também é adotada por marcas como GWM e BYD.

Contudo, a lateral do veículo mantém praticamente todas as características do Kicks original. O desenho das portas, retrovisores, maçanetas, o formato dos vidros e a coluna C – que sobe em linha reta após a porta traseira – são idênticos aos do modelo predecessor.

Interior: reaproveitamento inteligente versus inovações

Dentro do habitáculo, diversos componentes são idênticos aos do antigo Kicks:

  • Volante
  • Capacidade do tanque de combustível
  • Câmbio
  • Freio de mão
  • Botões dos vidros elétricos
  • Tamanho e formato do apoio de braço
  • Porta-copos
  • Tamanho do para-sol
  • Retrovisor
  • Lâmpada de leitura

Embora esse reaproveitamento possa ser visto como um ponto negativo, é importante considerar que essa estratégia é fundamental para evitar aumentos expressivos no preço final. A Hyundai adotou abordagem semelhante com o Creta, mantendo a lateral praticamente inalterada enquanto renovava o visual em pontos-chave. No caso do Kait, essa decisão permitiu que a Nissan mantivesse o preço de um projeto ultrapassado, com a versão de entrada custando os mesmos R$ 117.990 do Kicks Play, enquanto a versão topo de linha chega a R$ 152.990.

Por outro lado, o Kait traz desde a versão básica itens que no Kicks Play estavam disponíveis apenas nas configurações mais caras:

  • Central multimídia de 8 polegadas com Android Auto e Apple CarPlay
  • Chave presencial
  • Faróis e lanternas de LED
  • Rodas de 17 polegadas
  • Câmera de ré
  • Sensor de estacionamento traseiro
  • Partida por botão

Entretanto, também houve cortes claros para reduzir custos. Antes, o carro oferecia duas portas USB na frente; agora, o novo modelo disponibiliza apenas uma. Existem duas portas USB-C na segunda fileira, mas essa não é exatamente a mesma conveniência. Considerando que o espelhamento do Android Auto e do Apple CarPlay pode ser feito sem fio, e que há um carregador de celular por indução no console – disponível apenas na versão mais cara do Kait –, a única porta USB dianteira pode servir principalmente para recarregar o smartphone do carona.

Espaço e dimensões: prioridade no bagageiro

Dois aspectos seguem inalterados em relação ao Kicks, e nesses casos não há motivos para reclamações. As dimensões do Kait continuam praticamente iguais, com apenas um centímetro a mais no comprimento devido ao desenho do novo para-choque traseiro. O segundo ponto é o porta-malas de 432 litros, um dos maiores entre os SUVs de entrada e claramente um ponto alto do veículo.

Como o bagageiro foi priorizado no projeto, o espaço interno não impressiona excessivamente, mas também não decepciona. O Kait acomoda quatro adultos com relativo conforto, especialmente se nenhum deles for muito alto. Essa configuração torna o veículo adequado para uso familiar urbano, ainda que com limitações para viagens longas com lotação máxima.

Desempenho: motor aspirado em um segmento turbo

Um terceiro item entra na lista de características, agora pelo lado negativo: o motor é o mesmo 1.6 aspirado do Kicks Play. Se, por um lado, isso mantém o Kait como uma opção robusta com um propulsor já conhecido por muitos mecânicos, por outro ele fica em desvantagem por ser o único SUV do segmento sem opção turbo.

No uso urbano, o motor entrega o necessário em baixas velocidades. As ultrapassagens na cidade ocorrem sem dificuldades significativas, mas o problema aparece claramente na estrada: a ausência de turbo pesa nas retomadas e no nível de ruído. O motor só entrega o torque máximo aos 4.000 giros e, ao passar dos 3.000, o ruído já começa a incomodar. Acelerar para ultrapassar com quatro adultos a bordo, sem exceder o limite da via, torna-se um processo lento e ruidoso.

Quando a velocidade se estabiliza, o motor volta a ficar mais silencioso, e o câmbio CVT, sem marchas definidas, garante transições suaves. Para quem teve um Kicks mais antigo e reclamava da baixa autonomia, o Kait não traz melhorias nesse aspecto. Um tanque cheio não garante 300 quilômetros de rodagem, o que significa que, em viagens longas, será necessário parar com maior frequência para abastecer.

Fechando a avaliação de dirigibilidade, a suspensão agrada, assim como já acontecia no Kicks Play. Ela é bem equilibrada para cumprir o que se espera de um carro desse segmento: absorver os impactos do asfalto brasileiro e controlar a carroceria em curvas fechadas. Em resumo, o Kait comporta-se bem na cidade, mas na estrada, com o carro cheio, passa a sensação de falta de fôlego – uma contradição com o porta-malas grande, que convida justamente a encarar viagens longas com mais pessoas a bordo.

Tecnologia: avanços na segurança, decepção na multimídia

Outra contradição aparece na tecnologia embarcada do Kait. O carro possui um dos conjuntos mais avançados de segurança e assistência ao motorista entre os concorrentes. Por outro lado, a central multimídia decepciona significativamente.

A versão testada trazia um sistema que não é fabricado pela Nissan, mas pela Pioneer, empresa conhecida por vender esse tipo de equipamento separadamente. Embora seja natural que desenvolver um sistema próprio seja mais caro do que terceirizar, as telas da central e do painel do Kait não seguem uma identidade visual única. As interfaces não se integram harmoniosamente, as cores dos displays são diferentes e os botões físicos também adotam padrões próprios.

A desconexão é tamanha que havia cerca de 30 segundos de diferença entre os relógios dos dois displays durante os testes. Assim, a central multimídia cumpre apenas o básico: espelhar o celular sem fio. Até o acabamento decepciona, por refletir excessivamente o que está à frente. A situação poderia ser resolvida com o aumento do brilho, mas esse ajuste não está disponível.

Olhando para a concorrência, praticamente qualquer solução é melhor. O Volkswagen Tera, por exemplo, traz até inteligência artificial em seu sistema multimídia, capaz de responder a perguntas dos ocupantes. Quem valoriza tecnologia embarcada certamente sentirá a diferença.

Vale a pena? Uma análise comparativa

O Nissan Kait representa uma evolução importante em relação ao Kicks Play. Tornou-se mais equipado e moderno, mas ainda fica atrás em termos de motores mais potentes e eficientes no consumo de combustível. O modelo resolve adequadamente a confusão de dois carros diferentes com o mesmo nome e preserva pontos essenciais, especialmente o espaço generoso do porta-malas.

Contudo, quem pode abrir mão de alguns litros de capacidade no bagageiro e busca um conjunto mais moderno encontra opções mais interessantes no Volkswagen Tera e no Fiat Pulse. A tabela de preços abaixo ilustra o posicionamento do Kait frente aos principais concorrentes:

  1. Nissan Kait: de R$ 117.990 a R$ 152.990
  2. Volkswagen Tera: de R$ 108.390 a R$ 144.390
  3. Renault Kardian: de R$ 113.690 a R$ 149.990
  4. Fiat Pulse: de R$ 114.990 a R$ 160.990

O Nissan Kait chega ao mercado brasileiro em um momento crucial, buscando reconquistar espaço num segmento que se tornou um dos mais competitivos do país. Com produção nacional e foco na exportação para a América Latina, o modelo representa um capítulo importante na estratégia da Nissan para a região, mesclando heranças do passado com aspirações de modernidade em um mercado que não perdoa meio-termo.