Hiperconexão e medicalização: os desafios da saúde mental da Geração Z
Saúde mental da Geração Z: hiperconexão e medicalização

Em um mundo marcado por telas e conexões permanentes, a Geração Z enfrenta uma epidemia silenciosa de transtornos mentais. A análise do médico e presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde, Claudio Lottenberg, publicada em 9 de janeiro de 2026, joga luz sobre um fenômeno complexo: o sofrimento psíquico dos jovens não é apenas uma questão individual, mas um reflexo das pressões de uma sociedade hiperconectada e medicalizada.

O mundo digital como amplificador de angústias

Diferente das gerações anteriores, que testemunharam o surgimento da internet, a Geração Z nasceu imersa no ambiente digital. Para eles, a vida online não é uma transformação, mas a realidade. Experiências, relacionamentos e a construção da identidade passam, inevitavelmente, pelas telas. O desafio, segundo Lottenberg, é compreender como esse ambiente potencializa angústias históricas da juventude, como a comparação social e a pressão por desempenho.

O psicólogo americano Jonathan Haidt, autor de "A Geração Ansiosa", aponta a hiperconexão e o uso intensivo de celulares como fatores determinantes para o aumento de problemas como ansiedade, depressão, automutilação e privação de sono desde 2010, quando os smartphones se popularizaram. No entanto, Lottenberg ressalta que a tecnologia não age sozinha. Ela funciona como um catalisador dentro de um contexto social mais amplo, que exige produtividade, exposição e velocidade constantes.

A sociedade que adoece e a tendência à medicalização

O texto provoca uma reflexão crucial: até que ponto a sociedade que criamos, com suas guerras, desigualdades, intolerâncias e crise climática, contribui para o adoecimento coletivo? As respostas a essas pressões têm sido cada vez mais encontradas na farmácia. O sofrimento está sendo medicalizado, e entre os jovens, é comum que angústias, tristeza ou desatenção sejam tratados com medicamentos.

Esse fenômeno tem um duplo efeito. Por um lado, transformar reações normais às tensões da vida em diagnósticos clínicos pode inflar estatísticas e fazer crer que o problema está apenas no indivíduo, desviando o foco das causas sociais. Por outro, a busca por um diagnóstico, paradoxalmente, quebrou tabus e ampliou o acesso a cuidados em saúde mental, um avanço significativo em relação a tempos onde o assunto era estigmatizado.

Escuta humanista como caminho

A solução, portanto, não está em demonizar a tecnologia ou simplesmente mandar os jovens passarem menos tempo online. Lottenberg defende que é preciso encontrar novas formas de escuta e acolhimento compatíveis com o mundo que essa geração conhece. O caminho apontado passa por uma educação com princípios humanistas, que incentive o diálogo, o respeito e a paz.

O grande desafio é cuidar dos jovens, entendendo seus anseios sem simplificar a equação do seu sofrimento. É necessário equilibrar o reconhecimento dos impactos da hiperconexão com a compreensão de que a saúde mental da Geração Z é, em grande medida, um sintoma dos valores e das pressões da sociedade contemporânea.