Uma nova forma de prevenção ao HIV, que promete revolucionar a adesão ao tratamento, começa a ser testada no Brasil. Trata-se de uma versão da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) que, em vez de exigir um comprimido diário, pode ser tomada apenas uma vez por mês. O estudo de fase 3, batizado de EXPrESSIVE, é liderado pela farmacêutica americana MSD e envolverá 4.390 pessoas em 16 países, incluindo o Brasil.
Como funcionará o estudo da nova PrEP
Oito instituições brasileiras participarão da pesquisa internacional. O objetivo central é avaliar se um único comprimido mensal do medicamento experimental MK-8527 é suficiente para garantir proteção contínua contra o vírus HIV. Atualmente, a PrEP disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) é administrada de duas formas: uso diário contínuo ou o esquema "2+1+1" sob demanda, para situações específicas.
Durante o estudo, todos os participantes receberão dois tipos de medicamento: o Truvada (PrEP oral diária já conhecida) e o novo MK-8527 (de uso mensal). No entanto, apenas um deles será a substância ativa, enquanto o outro será um placebo – um comprimido sem efeito medicinal. Nem os voluntários nem os médicos saberão quem recebe qual, em um método chamado duplo-cego.
O acompanhamento será rigoroso, com consultas mensais por aproximadamente dois anos e meio. Os voluntários terão acesso a acompanhamento médico especializado, exames laboratoriais regulares e todas as medicações fornecidas gratuitamente.
Potencial impacto na saúde pública
Especialistas enxergam um grande potencial na nova modalidade. "A possibilidade de uma PrEP oral de uso mensal oferece mais comodidade, o que pode aumentar a adesão e facilitar o acesso à prevenção", afirma o médico infectologista José Valdez Ramalho Madruga, diretor da Casa da Pesquisa do CRT-DST/Aids-SP, um dos centros participantes.
Para o produtor cultural Victor Soriano, 33, ex-usuário da PrEP diária por dois anos e agora candidato ao estudo, a motivação é coletiva. "Saúde é feita por todos. Lá atrás, pessoas participaram de estudos para que a gente tenha medicamentos hoje. Quando soube que eu estava no grupo elegível, vi como contribuir para gerações futuras", relata. Ele também vê vantagens práticas: "Num mundo acelerado, uma pílula mensal na agenda minimiza esquecimentos, protege mais gente e desmistifica o tema estigmatizado".
Segurança, eficácia e critérios para participação
As fases anteriores do estudo já demonstraram que a molécula MK-8527 é bem tolerada, sem efeitos colaterais observados. O medicamento pertence a uma nova classe, os inibidores da translocação da transcriptase reversa de nucleosídeos (NRTTI). Ele age bloqueando uma etapa crucial da replicação do HIV dentro do corpo humano, impedindo que o vírus converta seu RNA em DNA e se estabeleça como infecção.
No entanto, os pesquisadores são cautelosos. Rico Vasconcelos, infectologista e investigador principal do estudo na USP, ressalta que, como em qualquer pesquisa clínica, há riscos. "A eficácia depende da adesão correta. A PrEP mensal pode ser tão ou mais eficaz pela facilidade, mas isso só o estudo provará", explica. Ele também adverte que é prematuro falar em economia para o SUS com uma possível substituição, pois novos medicamentos costumam chegar com preços elevados.
O estudo está aberto para pessoas maiores de 16 anos, sexualmente ativas, que não vivem com HIV e se enquadram em um ou mais dos seguintes grupos:
- Mulheres trans e travestis;
- Homens cisgêneros que fazem sexo com homens cis e/ou mulheres trans;
- Homens trans que fazem sexo anal;
- Pessoas de gênero não binário que fazem sexo anal.
É necessário não estar em um relacionamento monogâmico mútuo e ter tido relações sexuais anais receptivas sem preservativo nos últimos 12 meses. Além disso, os candidatos devem atender a pelo menos um destes critérios adicionais:
- Ter praticado sexo anal receptivo com dois ou mais parceiros nos 3 meses anteriores à triagem;
- Ter recebido diagnóstico de gonorreia, clamídia retal/uretral ou sífilis nos últimos 6 meses;
- Ter usado medicamentos estimulantes durante relações sexuais nos últimos 3 meses.
A participação é totalmente voluntária, gratuita, sigilosa e segue rigorosas normas éticas nacionais e internacionais. Se os resultados forem positivos, o Brasil poderá contar com uma ferramenta poderosa e mais acessível no combate à epidemia de HIV.