Agentes da Abin denunciam 'mãos atadas' para lidar com crise na Venezuela
Abin: servidores criticam falta de estrutura em crise venezuelana

Servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) manifestaram preocupação com a capacidade do órgão de responder a desafios estratégicos, como a recente crise política na Venezuela. Em nota divulgada nesta quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, os profissionais afirmam estar com "mãos atadas" devido à falta crônica de investimentos e estrutura adequada.

Crise internacional expõe fragilidades da Abin

A situação se agravou após os eventos do último sábado, 3 de janeiro, quando uma ação militar rápida derrubou o ditador Nicolás Maduro do poder na Venezuela, aprofundando a crise entre o país e os Estados Unidos. Uma das funções centrais da Abin é justamente elaborar relatórios para auxiliar o governo federal a enfrentar desafios que coloquem em risco a segurança e a soberania do Brasil.

No entanto, desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os servidores vêm alertando para o sucateamento da agência. A nota foi emitida pela União dos Profissionais de Inteligência de Estado (Intelis), entidade que representa os funcionários, e destaca a incapacidade atual de prever e enfrentar ameaças crescentes.

Histórico de problemas e denúncias

Os problemas na Abin não são novos. Em junho do ano passado, os agentes chegaram a ameaçar entrar em greve para pressionar por melhores condições de trabalho. Na ocasião, a categoria também expressou indignação com as denúncias que envolviam a cúpula do órgão.

O atual diretor-geral, Luiz Fernando Correa, foi indiciado pela Polícia Federal por supostos crimes de obstrução da investigação, prevaricação e coação durante um processo interno — acusações que ele nega. Além disso, durante o governo de Jair Bolsonaro, a PF apurou que a Abin foi utilizada para espionar desafetos políticos, um escândalo que manchou a imagem da instituição.

Os servidores listam uma série de outros problemas que afetam o dia a dia da agência:

  • Acusações de assédio institucional.
  • Vazamentos de dados sigilosos de agentes durante apurações internas.
  • Desvalorização da categoria profissional.
  • Ausência de propostas legislativas para modernizar o setor.
  • Cortes orçamentários significativos.
  • Recorrência de viagens internacionais pela diretoria, vistas como desperdício de recursos.

Alerta para o futuro e soberania nacional

Na nota íntegra divulgada pela Intelis, os servidores destacam que os desafios não se limitam à crise venezuelana. Eles citam eventos cruciais no horizonte, como as eleições nacionais de 2026, para os quais a Abin também não estaria preparada.

"Os servidores da Abin veem com profunda preocupação a atual situação da Agência para antever e enfrentar os desafios crescentes à soberania brasileira, à autodeterminação dos povos e à paz na América Latina", diz um trecho do documento. A entidade afirma que a agência opera sem as condições tecnológicas, orçamentárias e normativas necessárias para cumprir suas funções essenciais de assessoramento estratégico e proteção nacional.

O apelo dos agentes é por um diálogo mais efetivo com o governo federal e por investimentos urgentes. Eles temem que, sem uma ação imediata, o sucateamento do órgão se torne irreversível, deixando o Brasil vulnerável em um cenário geopolítico cada vez mais complexo.