Justiça suspende encaminhamento de pacientes do SUS para hospital em Ribeirão Preto
Justiça suspende encaminhamento de pacientes do SUS para hospital

Justiça suspende encaminhamento de pacientes do SUS para hospital em Ribeirão Preto após irregularidades graves

A Justiça de São Paulo determinou uma medida drástica que impacta diretamente o atendimento à saúde pública em Ribeirão Preto. Em decisão da 2ª Vara da Fazenda Pública, a juíza Lucilene Aparecida Canella de Melo ordenou que a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e o governo do Estado de São Paulo imediatamente interrompam o encaminhamento de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) para o setor de urgência e emergência do tradicional Hospital Beneficência Portuguesa, localizado na região central da cidade.

Decisão judicial e suspensão imediata dos encaminhamentos

A determinação judicial foi emitida após o Ministério Público mover uma ação civil contra a instituição hospitalar, alegando a existência de irregularidades graves e persistentes na unidade. Em atendimento à ordem, a Prefeitura de Ribeirão Preto confirmou, através de nota oficial, que já suspendeu, a partir desta terça-feira (27), o envio de pacientes para a urgência e emergência do hospital. A administração municipal destacou que a unidade recebia, em média, 30 pacientes encaminhados das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) por dia, e que agora estuda medidas para reorganizar a rede municipal e minimizar os impactos dessa suspensão sobre os fluxos assistenciais.

O Departamento Regional de Saúde (DRS) de Ribeirão Preto também se manifestou, informando que, ao tomar conhecimento da decisão, articulou com representantes de outros hospitais da cidade e região para redirecionar a regulação dos casos de urgência e emergência. A entidade assegurou que nenhum atendimento ou assistência aos pacientes será prejudicado com a mudança. A reportagem tentou contato com o Hospital Beneficência Portuguesa para um posicionamento, mas foi informada por uma atendente que não havia ninguém disponível para comentar o assunto no fim da tarde desta terça-feira.

As irregularidades encontradas e o histórico do caso

De acordo com as informações do processo judicial, um inquérito civil foi aberto em 2022 a partir de uma representação do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), que documentou uma série de problemas estruturais e operacionais no hospital. Entre as irregularidades apontadas, destacam-se:

  • Ausência de enfermeiro em locais onde são desenvolvidas atividades de enfermagem, comprometendo a segurança do paciente.
  • Superlotação crônica, com pacientes mantidos em macas nos corredores ou internados por até cinco dias na unidade à espera de vagas em leitos adequados.
  • Falta de quartos exclusivos com antessala para isolamento de pacientes portadores de bactérias multirresistentes, aumentando riscos de infecção hospitalar.
  • Falhas na anotação de responsabilidade técnica, o que pode prejudicar o acompanhamento e a continuidade do cuidado.

Além disso, a ação do Ministério Público apontou que a Vigilância Sanitária constatou que o hospital opera duas unidades de pronto atendimento sem projetos arquitetônicos aprovados, evidenciando uma nítida diferença entre o setor destinado a convênios privados e o destinado ao SUS, com condições inferiores para os pacientes do sistema público. A Promotoria de Justiça afirmou que, apesar das solicitações de adequação, as melhorias não foram realizadas, com a instituição alegando dependência de repasses externos para implementá-las. Em 2025, novas fiscalizações confirmaram a permanência dos problemas, incluindo um caso em que um paciente aguardava um leito de UTI dois dias após realizar uma angioplastia.

Prazo de 90 dias para correções e providências exigidas

Ao acatar o pedido liminar do Ministério Público, a juíza estabeleceu um prazo de 90 dias para que o Hospital Beneficência Portuguesa adote uma série de providências essenciais para regularizar sua situação. As determinações incluem:

  1. Reorganizar a sala de observação do pronto atendimento SUS, garantindo distanciamento mínimo entre leitos, redução da superlotação e disponibilização de monitores e réguas de gases para todos os leitos.
  2. Disponibilizar equipe multiprofissional completa, composta por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas, de acordo com a demanda real da unidade.
  3. Assegurar condições adequadas para a permanência de acompanhantes, melhorando o conforto e a assistência aos pacientes.
  4. Providenciar equipamentos essenciais, incluindo um carro de urgência adicional completo e lavatórios funcionais em todos os setores.
  5. Comprovar o início das obras de adequação do projeto arquitetônico, que deve ser previamente aprovado pela Vigilância Sanitária.

Durante esse período de 90 dias, a Justiça também determinou que o estado e o município se abstenham de encaminhar novos pacientes para o hospital, mantendo a suspensão até que as correções sejam implementadas e validadas. É importante ressaltar que, apesar da decisão, consultas e cirurgias agendadas não foram suspensas, indicando que a medida se restringe especificamente ao fluxo de urgência e emergência do SUS. A situação coloca em evidência os desafios da saúde pública na região e a necessidade de fiscalização rigorosa para garantir a qualidade e a segurança do atendimento hospitalar.