STF inicia ano judiciário com foco em código de ética e discurso de autocorreção
STF abre ano com código de ética e discurso de autocorreção

Supremo Tribunal Federal inicia ano judiciário com ênfase em ética e reflexão institucional

A segunda-feira, 2 de dezembro, marcou a solene reabertura dos trabalhos no Supremo Tribunal Federal (STF), evento que contou com a presença de altas autoridades do país e estabeleceu as diretrizes para o ano judiciário de 2026. O presidente da Corte, ministro Luiz Edson Fachin, destacou como prioridade absoluta de sua gestão a elaboração de um código de ética para os ministros, designando a ministra Cármen Lúcia como relatora do projeto.

Cerimônia reúne lideranças nacionais em defesa das instituições

A sessão de abertura congregou figuras centrais do cenário político e jurídico brasileiro, incluindo o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Beto Simonetti. A presença maciça simbolizou um momento de união institucional após períodos de tensão política.

Durante seu discurso, Fachin apresentou a agenda do STF para 2026, enfatizando a necessidade de fortalecer os pilares democráticos. O ministro defendeu com vigor a liberdade de imprensa e de expressão como elementos fundamentais para estruturar o debate público saudável, lembrando que tais garantias são essenciais para a consolidação do Estado de Direito.

Reflexão histórica e chamado à autocorreção institucional

Fachin fez um balanço detalhado da atuação do Supremo nas últimas cinco décadas, reconhecendo o protagonismo assumido pela Corte em momentos críticos, mas alertando para os ônus dessa posição. "O protagonismo tem seus ônus e efeitos para a legitimidade institucional. Os ministros respondem pelas escolhas que fazem", afirmou, destacando que cada decisão, priorização de casos e forma de comunicação importa para a credibilidade do Judiciário.

O presidente do STF lembrou o papel crucial da Corte diante de tentativas de ruptura institucional, como na defesa do processo eleitoral e das urnas eletrônicas, mas sinalizou que chegou a hora de um novo ciclo. "Entendo que agora o desafio é diferente. Minha convicção é que esse momento chegou. A fase agora é da retomada plena da construção institucional de longo prazo", declarou, usando a palavra "autocorreção" para descrever essa fase de ponderações e ajustes.

Fachin citou o jurista italiano Piero Calamandrei para reforçar que magistrados não estão acima de críticas: "Não é honesto, quando se fala dos problemas da justiça, refugiar-se atrás da cômoda frase feita que diz ser a magistratura superior a qualquer crítica", argumentando que os juízes são seres humanos sujeitos às mesmas falibilidades que qualquer cidadão.

Código de ética como compromisso prioritário

O anúncio da criação de um código de conduta para os ministros do STF foi um dos pontos altos da cerimônia. Fachin confirmou que a ministra Cármen Lúcia aceitou a relatoria da proposta, com a primeira reunião para tratar do assunto marcada para quinta-feira, 12 de dezembro. "Compromisso de minha gestão para o Supremo Tribunal Federal. Vamos caminhar juntos na construção do consenso no âmbito deste colegiado", afirmou o presidente, demonstrando otimismo quanto à adoção das novas normas éticas.

Sem mencionar especificamente o caso do Banco Master, Fachin ressaltou que o ordenamento jurídico brasileiro já dispõe de mecanismos adequados para lidar com ilícitos no sistema financeiro. "Eventuais práticas irregulares encontram resposta adequada nos mecanismos próprios de supervisão, fiscalização e sanção", disse, alertando que soluções à margem das instituições podem comprometer a segurança jurídica e a separação de Poderes.

Discurso presidencial em defesa da democracia e do STF

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também discursou na solenidade, lembrando os ataques de 8 de janeiro de 2023 e o papel fundamental do Supremo nos julgamentos e condenações dos envolvidos. Lula defendeu que as instituições cumpriram seu papel na proteção da democracia e do Estado de Direito, elogiando a atuação do STF.

"O Supremo Tribunal Federal não buscou protagonismo. Muito menos tomou para si atribuições de outros Poderes. Agiu no estrito cumprimento de sua responsabilidade institucional", afirmou o presidente, destacando que ministras e ministros enfrentaram pressões e ameaças por agirem em conformidade com a lei.

Lula ainda enalteceu a cooperação interinstitucional no combate ao crime organizado, citando a Operação Carbono Oculto como exemplo de sucesso na integração entre Poder Judiciário, Polícia Federal e Receita Federal para atingir os mandantes de organizações criminosas.

Primeira sessão de 2026 e pauta inicial

A solenidade desta segunda-feira oficializou a abertura do ano judiciário, com a primeira sessão de 2026 marcada para a próxima quarta-feira. Na pauta inicial, está uma ação que discute o uso das redes sociais por juízes de todo o Brasil, tema que reflete os desafios contemporâneos da magistratura diante das novas tecnologias e da exposição pública.

O evento no STF simbolizou não apenas um recomeço administrativo, mas um momento de reflexão coletiva sobre o papel das instituições democráticas, a necessidade de transparência ética e o equilíbrio entre os Poderes, reforçando o compromisso com a Constituição e a soberania popular.