Venezuelanos no Brasil expressam dor e temor após invasão dos EUA ao país
Venezuelanos no Brasil reagem à invasão dos EUA

A recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela despertou uma onda de sentimentos conflitantes entre os venezuelanos que construíram uma nova vida no Brasil. Longe de sua terra natal, eles acompanham com apreensão e dor os desdobramentos de um conflito que promete redefinir o futuro de seu país.

Entre a estabilidade conquistada e a dor da pátria distante

O produtor audiovisual Benjamin Mast, de 44 anos, chegou ao Brasil em 2016, antes do auge da crise migratória. Estabelecido em Roraima, onde tem uma produtora com a esposa e uma filha de um ano, ele vê a invasão com o coração partido. "É muito triste, para mim, sentir que meu país vai virar uma colônia", desabafa. Mast critica a ação dos EUA, liderada pelo presidente Donald Trump, por carecer de base legal internacional e teme um futuro de instabilidade.

Para ele, a imagem de militares lançando bombas é agravada pela reação de parte da população que celebra a intervenção. "Não ter sequer amor próprio para tentar mudar as coisas de dentro", lamenta. Mast acredita que a combinação de más políticas internas do governo de Nicolás Maduro com as sanções econômicas dos EUA levou o país ao colapso, mas vê a invasão como uma solução desastrosa que beneficiará apenas oligarquias estrangeiras.

Trajetórias acadêmicas e o peso da distância

Em Foz do Iguaçu, no Paraná, a professora Livia Esmeralda Vargas González vive sua própria jornada de adaptação. Ela chegou ao Brasil em 2016 com uma bolsa de doutorado em História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais. O que era para ser uma estadia temporária transformou-se em uma travessia migratória, culminando em dois doutorados – em História e em Filosofia.

Livia classifica a invasão como "estarrecedora" e um ato de recolonização. "Significa a materialização de um ato de intervenção prática e recolonização do meu país", afirma, destacando que é um evento sem precedentes na história republicana venezuelana pós-independência. Sua maior angústia, no momento, é pela família que permanece no país, enfrentando escassez de alimentos, energia e a constante ameaça de novos bombardeios.

Apesar das dificuldades, ela encontrou no Brasil oportunidades inexistentes na Venezuela, onde era professora associada de Sociologia com salários precários. "Aqui no Brasil consegui abrir também uma janela como poeta e escritora", conta.

Reinvenção pela culinária e esperança cautelosa

A história de Maria Elias e sua família ilustra outra face da migração. Técnica em informática, ela chegou ao Rio de Janeiro em 2015 com o marido e dois filhos, fugindo da crise econômica que afetava seu comércio em Güigüe, estado de Carabobo. As dificuldades com a língua e a cultura foram superadas ao se dedicarem à culinária, resgatando suas raízes libanesas.

Começando com pedidos em uma lanchonete local, expandiram o negócio para jantares em residências e hoje oferecem um cardápio árabe e mediterrâneo. Sobre a situação na Venezuela, Maria tem uma visão mais complexa. Ela vê com certa esperança a saída de Maduro do poder, mas reconhece a confusão política. "Tem que manter, pelo menos por enquanto, o governo chavista para ver o que vai acontecer e depois fazer eleições livres", pondera, defendendo uma transição ordenada.

Para ela, a prioridade é ver a Venezuela "renascer e voltar a ser produtiva como sempre foi", embora admita não saber quais são as reais intenções da administração Trump. As histórias de Benjamin, Livia e Maria refletem a diversidade de perspectivas entre a diáspora venezuelana, unida pela preocupação com o destino de seu país, mas dividida em suas esperanças e temores para o futuro pós-invasão.