Venezuelanos em SP temem por famílias após EUA invadirem e prenderem Maduro
Venezuelanos em SP apreensivos após invasão dos EUA

A comunidade venezuelana residente em São Paulo vive um momento de grande apreensão e medo. A invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela no último sábado (3) e a subsequente captura e transferência do presidente Nicolás Maduro para solo americano geraram uma onda de incerteza sobre o futuro do país e, principalmente, sobre a segurança das famílias que ainda permanecem no território venezuelano.

Relatos de medo e incerteza na maior cidade do Brasil

Com mais de 45 mil imigrantes venezuelanos, São Paulo abriga o sexto maior contingente desse grupo entre os estados brasileiros. Em meio a essa população, histórias de angústia se multiplicam. Gustavo Perez, engenheiro, e Diana Hung, arquiteta, são dois dos venezuelanos que compartilharam seu temor com a GloboNews neste domingo (4).

Gustavo Perez, natural de Valência (a duas horas de Caracas), chegou ao Brasil em 2018 após uma exaustiva jornada de quatro dias de carro pela fronteira de Roraima. Ele descreve o momento de cruzar a fronteira como um grito de liberdade, uma decisão tomada ao considerar a situação em seu país de origem como "horrorosa".

"Ele [o país] só piora em qualidade de vida... direitos humanos e abusos da própria ditadura", afirma Gustavo, que ressalta: "A Venezuela agora é uma urgência porque tem uma intervenção dos Estados Unidos… mas a gente tem presos políticos… os maiores centros de tortura do continente". Ele reforça seu relato com conhecimento direto de casos: "Eu conheço, ela conhece… [pessoas que foram torturadas], que foram estupradas, que foram mortas… desaparecidas".

Para ele, os recursos do país, como o petróleo, nunca beneficiaram o povo: "Só a ditadura teve. Se vocês no Brasil quiserem apoiar a Venezuela, falem com venezuelanos… a maior fonte de experiências".

Famílias em risco e planos interrompidos

A incerteza é o sentimento que predomina. "Ninguém sabe o que vai acontecer. Nós, venezuelanos, temos esses 26 anos lidando com ditadura, com essa incerteza e aprendendo a nos movimentar nessa realidade", desabafa Gustavo, que teme pelos pais e sogros que ainda vivem em Valência.

Já Diana Hung, a arquiteta, viu seus planos pessoais serem drasticamente alterados pelos eventos. Ela adiou uma viagem planejada para visitar a Venezuela entre o Natal e o Ano Novo devido ao aumento das tensões com os Estados Unidos. "Possivelmente ficaríamos presos mais uma semana porque não dá para saber o que poderia acontecer", explicou. Diana deixou o país em busca de melhores oportunidades profissionais, um sonho interrompido pela instabilidade crônica.

O ponto crítico da crise: a operação norte-americana

Os eventos que desencadearam a atual onda de ansiedade ocorreram na madrugada de sábado (3). O exército dos Estados Unidos atacou a capital Caracas de surpresa. Nicolás Maduro foi capturado e levado de helicóptero para um navio da Marinha americana no Caribe, sendo posteriormente transferido para um centro de detenção em Nova York, onde chegou no início da noite.

Em entrevista coletiva, o presidente Donald Trump deixou clara a intenção norte-americana: os Estados Unidos "vão comandar a Venezuela até a transição de governo", através de um grupo a ser formado por Washington. A procuradora-geral americana, Pam Bondi, confirmou que Maduro será julgado pela justiça federal de Nova York sob a acusação de narcoterrorismo.

No domingo (4), Trump emitiu um novo alerta, desta vez dirigido a Delcy Rodríguez, reconhecida como presidente interina pela Suprema Corte venezuelana. Ele afirmou que ela "pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro" caso se recuse a cooperar com as autoridades americanas.

Repercussão internacional e futuro incerto

A captura de Maduro marca um momento decisivo e sem precedentes na longa crise venezuelana, com os Estados Unidos assumindo um papel ativo e direto na transição de poder. Enquanto a China já pediu a libertação imediata do líder venezuelano, a população civil, especialmente a diáspora, enfrenta uma vulnerabilidade aguda.

Especialistas e ativistas alertam para o risco de violações de direitos humanos durante este período de extrema instabilidade. Eles sugerem que, para nações como o Brasil, que abrigam um número significativo de exilados, é crucial ouvir as vozes desses imigrantes para compreender as complexas camadas da crise e os anseios de quem fugiu do regime.

Para Gustavo Perez, apesar do caos, há um fio de esperança: "Não estamos comemorando uma bomba… mas tem uma luz, aparentemente no final do túnel… o urgente é restaurar a democracia". Uma esperança que, no momento, convive com o medo palpável pelo destino dos entes queridos que ficaram para trás.