Venezuelanos em Caracas veem Delcy como continuidade e rejeitam Trump
Venezuela: Delcy como continuidade, rejeição a Trump

As ruas de Caracas, ainda esvaziadas, refletem um clima de incerteza enquanto os venezuelanos avaliam o cenário político após a captura de Nicolás Maduro. A figura da vice-presidente Delcy Rodríguez surge como um ponto central de discussão, vista por parte da população como um elemento de continuidade dentro do chavismo.

Delcy Rodríguez: a "continuidade necessária" em meio à crise

Para muitos habitantes da capital venezuelana, a ascensão de Delcy Rodríguez ao centro do poder segue a lógica da transição anterior, quando Hugo Chávez foi sucedido por Nicolás Maduro. Enrique, um homem de cerca de 50 anos, entrevistado ao sair de uma padaria, resumiu um sentimento comum: ele enxerga a vice-presidente como um "mal necessário" para conduzir um processo minimamente organizado e sem mais violência.

"Alguém precisa conduzir a transição", afirmou ele, destacando a percepção de que Rodríguez poderia garantir uma certa estabilidade. No entanto, essa visão não é unânime. Augusto, aposentado de 77 anos, apresenta uma crítica mais dura. Para ele, assim como Maduro se tornou ilegítimo após as eleições de julho de 2024, Delcy também carece de legitimidade popular.

"Ela foi nomeada por Nicolás Maduro, que era ilegítimo. Ele nunca foi eleito presidente, e Delcy faz parte disso. Ninguém a escolheu", argumenta o aposentado, questionando as bases do poder atual.

Rejeição unânime à hipótese de comando dos EUA

Se há divergências sobre a figura de Delcy Rodríguez, há uma concordância clara nas ruas de Caracas quanto às declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A ideia de que os EUA poderiam comandar a Venezuela após a captura de Maduro é amplamente rejeitada e considerada fora de propósito.

Para Enrique, a declaração de Trump não passa de "uma bobagem". Augusto vai além, classificando qualquer tentativa de controle externo como um completo absurdo. "É um absurdo querer comandar a Venezuela a partir de Washington. Não faz sentido. É o estilo dele, algo espalhafatoso", disparou o aposentado, ecoando um sentimento de soberania nacional mesmo em meio à crise profunda.

O dilema da transição: necessidade versus legitimidade

Mesmo crítico, Augusto reconhece a complexidade do momento. Ele admite a necessidade prática de uma transição administrada, dado que as estruturas do governo chavista ainda mantêm controle sobre setores-chave. "O governo ainda controla os quadros, os coletivos armados, os militares. Para avançar aos poucos, isso é necessário, mas por pouco tempo", avalia, sugerindo um papel transitório para a atual liderança.

O cenário descrito pelos cidadãos em 5 de janeiro de 2026 pinta um quadro complexo. De um lado, a figura de Delcy Rodríguez é interpretada como um canal possível para uma mudança gradual, ainda que dentro do mesmo espectro político. De outro, a população demonstra uma firme rejeição a qualquer intervenção estrangeira direta, especialmente sob a retórica de figuras como Donald Trump.

A capital venezuelana enfrenta, portanto, dias de profunda indecisão, onde a busca por um caminho estável esbarra em questões de legitimidade e na defesa intransigente da autonomia nacional. O futuro próximo dependerá de como esses dois fatores – a necessidade de ordem e o repúdio a interferências – serão equilibrados nos próximos capítulos da política venezuelana.