UE ameaça incluir Guarda Revolucionária do Irã em lista terrorista após repressão
UE pode incluir Guarda Revolucionária iraniana como terrorista

União Europeia avança para incluir Guarda Revolucionária iraniana em lista de organizações terroristas

A União Europeia pretende incluir a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês) na lista de organizações terroristas, anunciou a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, nesta quinta-feira (29/01). A medida representa uma resposta direta à violenta repressão aos protestos que ocorrem no país nos últimos meses.

"Quando se age como terrorista, deve-se ser tratado como terrorista", destacou Kallas, criticando o papel desempenhado pela força militar de elite do Irã na supressão das manifestações. "O balanço de vítimas e os meios utilizados pelo regime são verdadeiramente aterrorizantes. Por isso é que enviamos a mensagem de que, quando se reprimem as pessoas, isso tem um preço e merece sanções", afirmou a diplomata.

O poder da Guarda Revolucionária: um Estado dentro do Estado

Criada após a Revolução Iraniana de 1979 para proteger o regime clerical xiita, a Guarda Revolucionária evoluiu para se tornar o pilar mais poderoso da liderança do Irã. A instituição, que responde diretamente ao líder supremo Ali Khamenei, opera como um verdadeiro Estado dentro do Estado.

Com estimados 125 mil homens, segundo o Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, a IRGC possui tropas próprias para o Exército, Marinha e Aeronáutica, além de unidades especiais para missões no exterior. A milícia paramilitar Basij, subordinada à Guarda, tem papel crucial na repressão violenta de civis contrários ao regime.

A organização dispõe ainda de um exército cibernético, centro de monitoramento e serviço secreto próprio, que age independentemente do órgão de inteligência oficial do governo.

Expansão econômica e influência internacional

Nas últimas décadas, a Guarda Revolucionária ampliou significativamente sua influência sobre a economia iraniana. Controla o conglomerado Khatam-al-Anbia, responsável por projetos de infraestrutura como represas, estradas, ferrovias e linhas de metrô.

A força militar atua também nos setores de mineração, farmacêutico, fabricação de carros e está intimamente ligada à economia de gás e petróleo do país. Informalmente, seus domínios se estendem ao mercado imobiliário e ao contrabando, embora não existam dados precisos sobre sua participação no PIB iraniano.

No exterior, a brigada Quds da Guarda Revolucionária é responsável por apoiar grupos ideologicamente próximos do Irã, estruturando o chamado "Eixo da Resistência". Essa aliança inclui forças xiitas no Iraque, o regime de Bashar al-Assad na Síria, o Hezbollah no Líbano, a milícia houthi no Iêmen e o Hamas na Faixa de Gaza.

Contexto internacional e sanções anteriores

A possível designação da UE segue sanções já implementadas por outros países. Os Estados Unidos classificaram a IRGC como organização terrorista em 2019, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump. O Canadá seguiu o exemplo em 2024, e a Austrália, em 2025, após um ataque a uma sinagoga em Melbourne pelo qual a Guarda Revolucionária foi responsabilizada.

Na União Europeia, essa designação é atualmente limitada apenas a alguns oficiais do alto escalão da instituição. Em 2023, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução solicitando a inclusão completa da Guarda Revolucionária na lista de organizações terroristas do bloco, mas a decisão final cabe aos Estados-membros.

Com a violenta repressão à atual onda de protestos que se espalhou pelo Irã, o bloco europeu demonstra maior inclinação para adotar essa medida. "A guarda foi criada como uma ferramenta para promover a jihad em todo o mundo", afirmou em 2019 Paulo Casaca, fundador do South Asia Democratic Forum, acrescentando que a organização "está envolvida na promoção do terrorismo há muito tempo".

A medida ocorre em um contexto de tensões regionais crescentes, com Irã e Israel travando uma guerra indireta há anos que se intensificou em 2024. Em junho passado, Israel lançou um pesado ataque contra o Irã, o pior desde a guerra com o Iraque em 1980, visando sabotar o desenvolvimento de armas nucleares pelo país.