A União Europeia deu um passo firme em resposta às recentes ameaças comerciais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No dia 19 de janeiro de 2026, o bloco anunciou a imposição de tarifas retaliatórias contra produtos americanos, marcando uma mudança significativa de postura no cenário geopolítico.
Uma Resposta Mais Enérgica da Europa
Países como Dinamarca, Reino Unido, Alemanha e França uniram-se para aplicar tarifas que totalizam aproximadamente 93 milhões de euros. Esta medida é uma reação direta à possibilidade levantada por Trump de impor tarifas de 10%, podendo chegar a 25%, sobre produtos europeus, usando o comércio como ferramenta de pressão política.
Em análise ao programa Ponto de Vista, apresentado por Laísa Dall’Agnol, o mestre em Relações Internacionais Uriã Fancelli destacou que o movimento tem um peso essencialmente político, superando em significado seu impacto econômico imediato. Para o especialista, o valor das tarifas europeias, por si só, não é expressivo o suficiente para abalar a economia americana de forma direta. Trata-se mais de um incômodo pontual do que uma medida com poder de alterar o comportamento dos EUA no curto prazo.
O que está em jogo, segundo Fancelli, é uma sinalização clara. A UE, frequentemente criticada por suas respostas cautelosas às ofensivas de Trump, parece estar disposta a adotar uma postura mais firme. A decisão de retaliar, mesmo que de forma inicialmente limitada, indica que o bloco não aceitará passivamente o uso do comércio como instrumento de coerção política.
A Dependência Estratégica e a Nova Ferramenta: A "Bazuca Comercial"
Fancelli explicou que, no passado, a dependência europeia em relação aos EUA em questões de segurança limitava a capacidade de reação do bloco. Diferentemente de líderes como Xi Jinping, da China, ou Lula, do Brasil, que em outros momentos optaram por confrontar Trump, a Europa não tinha a mesma margem de manobra política.
Agora, no entanto, a UE estuda recorrer a um mecanismo mais potente: o instrumento anticorreção, apelidado de "bazuca comercial". Esta ferramenta permitiria ao bloco restringir o acesso de empresas estrangeiras ao seu mercado interno caso seus países de origem tentem forçar mudanças em decisões soberanas europeias por meio de tarifas, boicotes ou outras formas de coerção econômica.
Esta medida, defendida com mais vigor pelo presidente francês Emmanuel Macron, tem potencial para causar um impacto muito mais profundo do que tarifas pontuais, pois atingiria diretamente os interesses comerciais de corporações estrangeiras no vasto mercado europeu. A proposta, contudo, ainda não conta com apoio unânime dentro do bloco.
As Incertezas e os Possíveis Cenários Futuros
Fancelli pondera sobre a concretização das ameaças de Trump, lembrando que o presidente americano tem um histórico de abandonar retóricas agressivas ao longo do caminho. Como exemplo, citou a recente ameaça de tarifas contra países que mantivessem comércio com o Irã, que foi deixada de lado poucos dias depois.
O movimento europeu, portanto, funciona como um sinal de alerta. Embora os efeitos econômicos imediatos sejam limitados, a mensagem é clara: se as ameaças comerciais dos Estados Unidos se materializarem e avançarem, a União Europeia demonstrou que está preparada para escalar sua resposta e utilizar instrumentos mais contundentes para defender sua soberania e seus interesses.
O episódio revela um momento de redefinição nas relações transatlânticas, onde a linguagem do poder e da retaliação econômica ganha espaço, e a Europa busca estabelecer novos limites em sua relação com um aliado tradicional, porém cada vez mais imprevisível.