Especialista alerta: Ataque dos EUA ao Irã pode unir população e governo contra 'inimigo comum'
Ataque dos EUA pode unir Irã contra inimigo comum

Um possível ataque militar dos Estados Unidos contra o Irã, em resposta à violência contra manifestantes no país, pode ter um efeito contrário ao desejado, unindo a população e o governo iraniano contra um inimigo comum. Esta é a análise do professor de direito e relações internacionais da Universidade de Franca, Kleber Galerani, que ecoa a preocupação de senadores americanos sobre as consequências históricas de tal ação.

O fantasma do golpe de 1953 e a hesitação no Senado

As discussões ocorrem em um contexto em que autoridades militares e diplomáticas devem apresentar opções sobre o Irã ao ex-presidente Donald Trump. No entanto, uma maioria dos senadores americanos desaprova um ataque, considerando suas potenciais ramificações. A memória do golpe de estado de 1953 no Irã, apoiado pelos EUA, que acabou por contribuir para a ascensão do regime islâmico décadas depois, paira sobre o debate.

Galerani, em entrevista ao Conexão Record News na segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, concorda com a cautela dos legisladores. Ele destaca que a falta de consenso, inclusive entre políticos do partido de Trump, simboliza um reconhecimento de que o uso da força nem sempre é a melhor resposta na diplomacia e impossibilita a aprovação de planos militares mais complexos e dispendiosos.

O risco de unificação e retaliação

O especialista traça um paralelo com a situação em Israel. "Lá havia uma forte polarização e instabilidade do governo que está no poder até os dias atuais", explicou. "Mas quando ocorreram os ataques por parte do Hamas em 2023, isso deu um fôlego a mais para o governo estabelecido e permitiu uma continuidade em prol de combater um inimigo comum".

Segundo sua avaliação, um ataque americano poderia gerar um efeito semelhante no Irã, consolidando o apoio interno ao regime em um momento de tensão. Ainda que ele não acredite que um ataque direto ao território iraniano vá ocorrer, Galerani é categórico sobre as consequências: as chances de uma retaliação iraniana contra Israel são muito altas caso a ação militar se concretize.

Operação para capturar Khamenei seria extremamente complexa

Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos realizarem uma operação semelhante à tentada na Venezuela para capturar o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o professor foi cético. Embora admita que exista uma chance teórica, ele avalia que as dificuldades seriam muito maiores do que no caso de Nicolás Maduro.

"Estamos falando de uma região bastante conflituosa, de uma implicação de um cenário regional bastante complexo em que o Irã é um dos líderes regionais do Oriente Médio, com uma série de aliados ali em volta", argumentou Galerani. A complexidade geopolítica e a rede de influência iraniana tornariam tal missão um desafio logístico e estratégico de proporções enormes, com risco de escalada regional.

O debate, portanto, segue marcado pelo peso da história e pela avaliação de que soluções militares podem, paradoxalmente, fortalecer os regimes que se pretende pressionar, criando novas e perigosas dinâmicas de conflito no já instável Oriente Médio.