Trump usa inteligência artificial para reforçar ambição de comprar Groenlândia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou nas redes sociais uma montagem gerada por inteligência artificial que o mostra fincando a bandeira americana na Groenlândia. A imagem, divulgada em sua plataforma Truth Social, simboliza de maneira dramática a persistente ambição do líder republicano de adquirir o território autônomo dinamarquês no Ártico.
Ambição histórica com novas ameaças comerciais
Longe de ser uma brincadeira, Trump demonstra determinação em tomar o controle da maior ilha do mundo e agora ameaça impor novas tarifas alfandegárias contra países europeus que se opuserem aos seus planos. Esta não é a primeira vez que o tema surge: durante seu primeiro mandato, ele já havia expressado interesse na aquisição, alegando questões de segurança nacional.
O presidente busca repetir uma transação histórica semelhante à compra do Alasca da Rússia em 1867, que custou US$ 7,2 milhões na época. Contudo, a Groenlândia já rejeitou uma proposta americana há mais de 80 anos, no valor de US$ 100 milhões, e tanto o governo local quanto a população continuam afirmando que o território não está à venda.
Valores astronômicos em discussão
Especialistas e ex-membros do governo americano apresentam cálculos divergentes sobre quanto custaria essa aquisição hoje. A emissora NBC News menciona a cifra impressionante de US$ 700 bilhões (aproximadamente R$ 3,7 trilhões), embora sem detalhar a metodologia utilizada.
Já David Baker, ex-economista do Banco Central americano (Fed), realizou uma análise comparativa com aquisições territoriais anteriores dos EUA, ajustando pela inflação e crescimento econômico. Sua estimativa situa a proposta entre US$ 12 bilhões e US$ 77 bilhões.
Uma abordagem alternativa, mais modesta, considera oferecer compensação financeira diretamente aos 57 mil habitantes da ilha. Essa estratégia visaria obter apoio político para a separação da Dinamarca e adesão aos Estados Unidos, minimizando o valor dos recursos naturais na negociação.
Recursos naturais: o verdadeiro tesouro ártico
A Groenlândia abriga algumas das maiores reservas mundiais de terras raras e minerais críticos, essenciais para a indústria tecnológica. Além disso, a região do Ártico concentra 30% das reservas globais de gás natural e 13% das de petróleo.
Mikaa Blugeon-Mered, pesquisador sênior da Universidade do Quebec e especialista em polos na transição energética, explica à RFI: "Dos 50 metais críticos considerados prioritários pelo governo americano, 44 estariam presentes na Groenlândia em quantidades suficientemente satisfatórias para interessar os Estados Unidos."
Contudo, ele ressalta que, apesar da abundância de hidrocarbonetos, nunca foi encontrada na Groenlândia uma reserva comercialmente explorável com concentração suficiente para justificar economicamente a extração. Atualmente, existem apenas duas minas em atividade no território.
Concorrência chinesa e o conceito de "cidade livre"
Um dos principais motivadores da ambição americana é conter a expansão da China na região. Blugeon-Mered, autor do livro "Então você quer comprar a Groenlândia?", destaca: "A China tem tentado estabelecer posições estratégicas em todo o Ártico, solicitando licenças, tentando comprar minas e internalizar a cadeia de valor dos elementos de terras raras."
Outro aspecto que entra na equação é o potencial da ilha como uma "freedom city" (cidade livre). Este conceito, elaborado pela ala libertária do setor tecnológico aliada a Trump, imagina paraísos fiscais com regulação mínima, ideais para se tornarem laboratórios de inovação em inteligência artificial, veículos autônomos, lançamentos espaciais e micro reatores nucleares.
Diplomacia e interesses empresariais
A nomeação de Ken Howery como embaixador dos EUA na Dinamarca reforça os interesses comerciais por trás da iniciativa. Howery é um bilionário que fez fortuna na Silicon Valley e cofundou uma poderosa empresa de venture-capital ao lado de Peter Thiel, defensor da desregulação tecnológica e financiador de projetos do gênero.
Thiel, grande doador das campanhas de Trump e responsável pela ascensão política do vice-presidente J.D. Vance, junto com Howery são amigos de Elon Musk, criando uma rede de influência que conecta política, tecnologia e ambições territoriais.
Apesar do entusiasmo americano, os desafios são enormes: 80% do território groenlandês é coberto por uma espessa camada de gelo, exigindo investimentos colossais para exploração mineral. A viabilidade financeira dessa empreitada permanece uma incógnita, assim como a disposição dos groenlandeses em aceitar uma mudança de soberania.