A queda do presidente Nicolás Maduro, deposto por uma operação militar dos Estados Unidos no último fim de semana, não significou o fim da repressão na Venezuela. Pelo contrário, relatos indicam que a situação se intensificou nas ruas da capital, Caracas, sob o comando do atual ministro do Interior.
Patrulhas armadas e controle nas ruas
Na noite de segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, publicou uma série de imagens nas redes sociais. Nelas, ele aparece patrulhando as ruas de Caracas ao lado de policiais fortemente armados, muitos portando armas automáticas. O esquema de segurança na cidade foi reforçado.
Em uma das postagens, Cabello é visto comandando um grito de guerra junto às forças de segurança: “Leais sempre, traidores nunca! Duvidar é traição!”. O ministro afirmou ter percorrido áreas da capital para monitorar pessoalmente o patrulhamento.
Os relatos de moradores, no entanto, vão além das imagens oficiais. Na região de Petare, considerada a maior favela de Caracas, homens encapuzados e armados estariam fazendo patrulhas e apreendendo celulares de cidadãos. O objetivo seria vasculhar o histórico de conversas no WhatsApp em busca de palavras consideradas “incriminadoras”.
Dezenas de postos de controle militar surgiram pela cidade, e jornalistas estrangeiros estão sendo impedidos de entrar no país. O Sindicato dos Jornalistas e Trabalhadores da Mídia informou que 14 profissionais da área foram detidos na manhã de segunda-feira, embora tenham sido liberados horas depois.
A reação da oposição e a nova liderança
Do exílio, a principal líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, comentou a situação. Em entrevista à emissora americana Fox News, ela descreveu a detenção de Maduro como “um enorme passo para a humanidade, para a liberdade e para a dignidade humana”.
No entanto, Machado também fez uma crítica direta à nova presidente interina, Delcy Rodríguez, que era vice de Maduro. A oposicionista afirmou que Rodríguez “não é confiável”. Rodríguez, uma ideóloga socialista que atuou nos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, é vista por Estados Unidos e outros países da região como uma política pragmática.
O presidente americano, Donald Trump, chegou a afirmar no sábado que Rodríguez “está essencialmente disposta a fazer o que consideramos necessário para tornar a Venezuela grande novamente”. Paradoxalmente, no mesmo dia, a própria líder interina pediu publicamente a libertação de Nicolás Maduro.
Maduro se declara “prisioneiro de guerra”
As declarações de María Corina Machado foram dadas poucas horas após uma audiência judicial de Nicolás Maduro em Nova York. Perante o tribunal, o ex-presidente venezuelano se declarou inocente das acusações de tráfico de drogas e porte ilegal de armas.
Durante os 30 minutos de audiência, Maduro fez alegações dramáticas. Ele se autodenominou um “presidente sequestrado” e um “prisioneiro de guerra”, reforçando a narrativa de que sua deposição foi um ato ilegítimo.
A combinação do aumento da repressão interna, comandada por Diosdado Cabello, com as incertezas sobre o real alinhamento da nova liderança interina e o julgamento de Maduro no exterior, aponta para uma crise complexa e de múltiplas camadas na Venezuela. O país segue em um momento de extrema tensão e transição incerta.