Uma pesquisa de opinião divulgada nesta quinta-feira (15) revelou um sentimento de apreensão significativo na população brasileira em relação às ações militares dos Estados Unidos. O levantamento, realizado pelo instituto Genial/Quaest, apontou que 58% dos brasileiros têm medo de que os Estados Unidos façam com o Brasil algo semelhante à intervenção realizada na Venezuela.
Neutralidade é a posição preferida pela maioria
O estudo, que analisou a percepção sobre os ataques americanos ordenados por Donald Trump no início de janeiro e a captura do ditador Nicolás Maduro, mostrou que a maior parte dos cidadãos defende uma postura cautelosa do governo brasileiro. Para 66% dos entrevistados, o Brasil deve se manter neutro no conflito entre Washington e Caracas.
Apenas 18% dos brasileiros apoiam um alinhamento com os Estados Unidos, enquanto uma minoria de 10% avalia que o país deveria se opor frontalmente às ações americanas. A pesquisa foi realizada presencialmente com 2.004 pessoas a partir de 16 anos, entre os dias 8 e 11 de janeiro, após as manifestações oficiais do governo Lula, e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Reação de Lula divide o país e influencia cenário eleitoral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repudiou publicamente a incursão militar horas após os ataques, classificando-a como a ultrapassagem de uma “linha inaceitável”. Em publicação na rede social X, Lula argumentou que atacar países violando o direito internacional abre caminho para um “mundo de violência, caos e instabilidade”.
Essa posição, no entanto, dividiu a opinião pública. Para 51% dos brasileiros, a reação do presidente foi errada, enquanto 37% a consideraram correta. Outros 12% não souberam ou não responderam. A polarização é evidente ao analisar o perfil político: entre a esquerda não lulista, 72% apoiam Lula, contra 23% que reprovam. Já na direita não bolsonarista, 82% reprovam a postura presidencial.
O episódio também tem reflexos no cenário eleitoral deste ano. Para 24% dos entrevistados, a postura de Lula na crise venezuelana influencia sua decisão de voto. Desse grupo, 17% afirmam que a posição os faz preferir a oposição, e 7% dizem que reforça a preferência pelo petista. A maioria, 71%, declarou que o fato não afetará seu voto.
Legitimidade da ação militar gera debate
A pesquisa também explorou a visão dos brasileiros sobre a legitimidade da ação militar em si. Quando questionados especificamente sobre aprovar ou desaprovar o ataque americano, 46% disseram aprovar a ação e 39% a desaprovam.
O debate se aprofunda quando o foco é a justificativa de prender um ditador. Metade dos entrevistados (50%) considerou aceitável interferir em outro país para esse fim, enquanto 41% julgaram a ação inaceitável. Chama a atenção que 24% da amostra total afirmou desconhecer a notícia da prisão de Nicolás Maduro.
O governo brasileiro, dias após a primeira condenação, elevou o tom das críticas. O representante do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Benoni Belli, utilizou o termo “sequestro” para se referir à captura de Maduro durante reunião do conselho permanente da entidade em Washington.
Os dados revelam um país dividido e apreensivo, que prefere a neutralidade em um conflito internacional, mas que demonstra receio de se tornar alvo de ações semelhantes no futuro. A crise venezuelana, portanto, ressoa no Brasil não apenas como um tema de política externa, mas como um espelho de possíveis ameaças à própria soberania nacional.