O Papa Leão XIV recebeu em audiência privada, nesta segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, a líder da oposição venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado. O encontro, que constava na agenda oficial do pontífice, ocorreu no Vaticano, mas a Santa Sé não divulgou detalhes sobre o conteúdo das conversas.
Contexto de Críticas e Defesa da Soberania
A reunião acontece poucos dias após o primeiro comentário público do Papa sobre a recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro. Em pronunciamento, o pontífice, que é o primeiro americano a comandar a Igreja Católica, fez um apelo veemente para que a Venezuela permaneça um país independente.
Leão XIV pediu que a comunidade internacional “respeite a vontade” do povo venezuelano e enfatizou a necessidade de proteger os direitos humanos e civis no país, mergulhado em uma profunda instabilidade política. Ele foi além e criticou abertamente o uso da força militar como ferramenta de política externa.
“A diplomacia do diálogo está sendo substituída por uma diplomacia baseada na força. A guerra voltou à moda, e um zelo belicista se espalha pelo mundo”, afirmou o Papa, demonstrando preocupação com o enfraquecimento de organismos internacionais diante de crises globais.
Momento Delicado para a Nobel da Paz
A agenda no Vaticano marca a primeira aparição pública de María Corina Machado desde que esteve em Oslo, em dezembro de 2025, para receber o Prêmio Nobel da Paz. Após a cerimônia, que interrompeu meses nos quais esteve na clandestinidade, seu paradeiro era desconhecido.
O encontro com o Papa ocorre em um contexto político complexo para a opositora. O governo interino de Delcy Rodríguez, antiga vice de Maduro, prometeu libertar mais 116 presos políticos, aumentando a pressão sobre Caracas. Paralelamente, Machado enfrenta desavenças públicas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Após a operação que depôs Maduro, Trump descartou trabalhar com a líder oposicionista, declarando que ela “não tem o apoio interno ou o respeito dentro do país”. Apesar da fricção, o mandatário americano anunciou que deve recebê-la em Washington ainda nesta semana.
Tensão com Trump e a Polêmica do Nobel
A relação conturbada entre Trump e Machado ganhou um novo capítulo com o Nobel. O presidente americano demonstrou ressentimento pela decisão do comitê norueguês, que premiou a venezuelana no ano passado. Trump havia feito campanha ativa para ser agraciado com a láurea.
“Foi uma decisão muito vergonhosa para a Noruega. Quando oito guerras foram encerradas, deveria receber um para cada uma”, lamentou Trump em entrevista à Fox News, reivindicando o crédito pelo fim de diversos conflitos globais.
Curiosamente, em entrevista à mesma emissora, María Corina Machado afirmou que gostaria de entregar seu prêmio a Trump, em reconhecimento ao seu empenho em restaurar a democracia na Venezuela. No entanto, o Instituto Nobel foi taxativo ao ser consultado pela agência de notícias AFP: um Prêmio Nobel não pode ser revogado ou transferido. “Uma vez anunciado o(s) vencedor(es), a decisão permanece para sempre”, declarou o porta-voz Erik Aasheim.
O encontro no Vaticano, portanto, se configura como um evento de alto simbolismo diplomático. Ele coloca a Santa Sé como um ator que busca equilibrar a defesa dos direitos humanos e do diálogo, com uma crítica clara às intervenções militares unilaterais, enquanto oferece um espaço de reconhecimento a uma figura política em um momento de vulnerabilidade internacional.