A escalada de tensões entre Estados Unidos e Venezuela nos últimos meses, somada ao aumento da presença militar americana no Caribe, já indicava a possibilidade de uma intervenção. No entanto, o desfecho concretizado na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026 – uma invasão terrestre – e, principalmente, a subsequente decisão de Washington de permanecer no país e assumir o controle da indústria petrolífera venezuelana, pegaram muitos especialistas de surpresa.
Uma decisão que surpreendeu a todos
Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Jana Nelson, ex-subsecretária de Defesa dos EUA para o Hemisfério Ocidental durante o governo Biden, afirmou que o anúncio foi uma surpresa. Ela destacou que a base eleitoral do presidente Donald Trump, o movimento MAGA, sempre se mostrou contra guerras e mudanças de regime. "A ideia de que os Estados Unidos agora vão não só invadir a Venezuela, como governar o país é realmente uma surpresa para todo mundo", comentou Nelson.
A analista apontou que, em vez de apoiar a oposição venezuelana liderada por Edmundo Gonzalez e Maria Corina Machado, Trump parece ter negociado com a vice-presidente Delcy Rodriguez. "Claramente, o presidente está muito mais interessado em petróleo do que em democracia", avaliou.
Petróleo: a motivação central e um desafio complexo
Nelson explicou que havia duas razões principais para ela não acreditar que o governo Trump invadiria para explorar o petróleo venezuelano. A primeira era a rejeição do eleitorado a novos conflitos. A segunda era o estado crítico da indústria no país, destruída após décadas sob os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
"Todos os três processos, de extração, de refino e de distribuição estão em apuros. Não é algo que simplesmente de um dia para o outro se consegue resolver", detalhou a ex-subsecretária. Ela considerou "ingênuo" o plano anunciado por Trump de recuperar a infraestrutura com empresas americanas e vender o petróleo para outros países, mas lembrou que "esse governo tende a buscar soluções simples para problemas complexos".
Comparações históricas e um cenário mais grave
Jana Nelson comparou a invasão à Venezuela com a do Iraque em 2003, principalmente pelo elemento petróleo e pela remoção injustificada de um governo. No entanto, ela alertou que a situação atual é muito mais complexa do que a intervenção no Panamá em 1989, que removeu Manuel Noriega.
"A Venezuela é um país três vezes maior, tanto geograficamente quanto em população. Tem 20 anos de desinstitucionalização do governo", ressaltou. "A situação é muito mais grave." Ela também descartou a possibilidade de novas invasões na região, como em Cuba, por falta de justificativa e apoio.
As outras motivações por trás da intervenção
Além do petróleo, Nelson citou motivações políticas e migratórias. A influência da comunidade venezuelana e do cenário político da Flórida, onde Trump passa muito tempo, é um fator. A crise migratória gerada pelo regime de Maduro, que afeta os EUA e toda a América Latina, também foi usada como argumento para a intervenção.
Sobre a capacidade de resistência, a analista acredita que as Forças Armadas venezuelanas não teriam como responder adequadamente ao poderio militar americano. Quanto às milícias ligadas ao chavismo, ela avalia que são grupos pequenos que provavelmente "desapareceriam" sem a estrutura de controle do regime.
Por fim, ao comentar um documento recente de estratégia dos EUA que menciona a Doutrina Monroe, Nelson afirmou que a parte mais preocupante não é a referência à América Latina, mas o possível abandono da Europa frente a ameaças da Rússia. Para ela, Trump age com uma visão nostálgica dos anos 80, mas não terá apoio para repetir a ação venezuelana em outros países da região.