Inteligência dos EUA questiona compromisso de Delcy Rodríguez com estratégia americana
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, discursou em 8 de janeiro de 2026 durante cerimônia em homenagem a militares e seguranças venezuelanos e cubanos que morreram durante a operação dos Estados Unidos para capturar o ex-presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O evento ocorreu em meio a crescentes tensões diplomáticas.
Dúvidas sobre cooperação com Washington
Relatórios de inteligência dos Estados Unidos levantaram sérias dúvidas sobre se a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, cooperará efetivamente com o governo de Donald Trump ao cortar formalmente os laços com adversários internacionais dos EUA. Quatro fontes familiarizadas com os documentos confirmaram essa avaliação nos últimos dias.
Autoridades americanas afirmaram publicamente que desejam que a presidente interina rompa relações com aliados internacionais próximos como Irã, China e Rússia, incluindo a expulsão de seus diplomatas e assessores do território venezuelano. No entanto, Rodríguez, cuja cerimônia de posse contou com a presença de representantes desses países no início deste mês, ainda não anunciou publicamente tal medida.
Contexto político delicado
Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina após os Estados Unidos capturarem o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Segundo as fontes consultadas, os relatórios de inteligência dos EUA afirmam que não está claro se ela está totalmente alinhada com a estratégia americana para o país. Todas as fontes pediram anonimato para discutir informações sensíveis.
O diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou a Caracas em 15 de janeiro, onde manteve discussões sobre o futuro político do país com Rodríguez. A Reuters não conseguiu determinar se essas conversas alteraram a avaliação das agências de inteligência americanas.
Interesses estratégicos em jogo
Washington busca conter a influência de seus adversários no Hemisfério Ocidental, especialmente na Venezuela, onde Trump pretende explorar as vastas reservas de petróleo do país membro da OPEP. Se Rodríguez rompesse laços com os rivais dos EUA, isso abriria significativamente mais oportunidades para investimentos americanos no setor de energia venezuelano.
Porém, a incapacidade de controlar Rodríguez poderia minar os esforços de Washington para direcionar os governantes interinos do país à distância e evitar um envolvimento militar americano mais profundo na região. A Agência Central de Inteligência (CIA) e o governo da Venezuela não responderam a pedidos de comentário sobre a situação.
Posicionamento ambíguo de Rodríguez
Um alto funcionário do governo Trump, que pediu para não ser identificado, afirmou que o presidente dos EUA, Donald Trump, "continua a exercer alavancagem máxima" sobre os líderes da Venezuela e "espera que essa cooperação continue". Esta declaração ocorre em um contexto complexo, onde Rodríguez já declarou publicamente que está "farta" da intervenção dos EUA.
Ainda assim, autoridades americanas também tiveram conversas positivas com ela nos últimos dias, segundo duas das fontes consultadas. O governo Trump não vê uma alternativa imediata ao trabalho com Rodríguez, dado que a apoiou publicamente de forma tão contundente após a captura de Maduro.
Aliados históricos em risco
Para a Venezuela, a diretriz dos EUA significa abandonar seus aliados mais próximos fora da região. O Irã ajudou a Venezuela a reparar refinarias de petróleo, enquanto a China recebeu petróleo como pagamento de dívidas. A Rússia forneceu armamentos, incluindo mísseis, às Forças Armadas venezuelanas.
Trump também citou Cuba, governada por comunistas, como outro adversário dos EUA que ele quer que a Venezuela abandone. Havana forneceu apoio de segurança e inteligência enquanto recebe petróleo venezuelano a preços reduzidos, criando uma relação de dependência mútua.
Medidas conciliatórias e resistência
Desde a remoção de Maduro, Rodríguez — cujos profundos vínculos com o setor de petróleo são cruciais para manter o país estável — tomou medidas para se manter em boa relação com Washington. Estas incluem a libertação de presos políticos e a autorização da venda de 30 milhões a 50 milhões de barris de petróleo para os Estados Unidos.
No entanto, em um discurso recente, Rodríguez deixou claro seu descontentamento com o nível de intervenção americana, demonstrando a complexidade de sua posição como líder interina sob pressão internacional.
Alternativas políticas em análise
Autoridades dos EUA estão desenvolvendo contatos com altos oficiais militares e de segurança venezuelanos, caso decidam mudar de abordagem em relação a Rodríguez, segundo uma fonte informada sobre a política para a Venezuela. Esta preparação indica que Washington mantém opções alternativas em consideração.
Os relatórios recentes de inteligência também concluíram que a líder da oposição María Corina Machado não é, no momento, capaz de governar o país com sucesso. As avaliações indicam que ela não tem laços fortes com os serviços de segurança ou o setor de petróleo venezuelano, elementos cruciais para estabilidade política.
Cenário futuro incerto
Alguns observadores e o movimento de Machado afirmam que ela venceu as eleições de 2024 por ampla margem, embora o Estado tenha respaldado uma vitória de Maduro na época. Ela permanece popular entre segmentos da população venezuelana.
Trump disse a repórteres na semana passada que queria Machado "envolvida" na liderança do país, sem dar detalhes específicos. Uma pessoa familiarizada com as discussões do governo com Machado revelou que ela é bem-vista pela Casa Branca e considerada uma opção de longo prazo para um cargo de liderança na Venezuela.
Outra fonte informada sobre a política para a Venezuela sugeriu que, por ora, Machado poderia ser considerada para um papel de assessoria, mas nenhuma decisão firme havia sido tomada. Representantes de Machado não responderam a pedidos de comentário sobre essas possibilidades.