A captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças militares dos Estados Unidos, no sábado, 3 de janeiro de 2026, mergulhou a Venezuela em uma profunda crise política e institucional. O evento, que lembra a apreensão do ditador panamenho Manuel Noriega em 1990, gerou sinais completamente opostos vindos de Washington e de Caracas sobre quem detém o controle do país.
Declarações Contraditórias de Washington e Caracas
Poucas horas após a operação militar, o presidente americano, Donald Trump, fez um pronunciamento no resort Mar-a-Lago, na Flórida. Ele afirmou que os Estados Unidos "vão administrar" a Venezuela com a cooperação da vice-presidente Delcy Rodríguez. Trump declarou que Rodríguez teria assumido o governo interinamente e mantido conversas diretas com o secretário de Estado, Marco Rubio, demonstrando disposição para atender às exigências de Washington.
Em Caracas, no entanto, a resposta foi de confronto. Em rede nacional de televisão, Delcy Rodríguez classificou a ação como um "sequestro ilegal e vergonhoso". Ela exigiu a libertação imediata de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e deixou claro que a Venezuela não aceitaria "voltar a ser colônia de nenhum império". Ao seu lado estavam figuras-chave do regime chavista: o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, indicando uma frente unida do núcleo duro do poder.
Impacto na Revolução Bolivariana e Reação da Oposição
Esta ofensiva americana representa o maior abalo à Revolução Bolivariana desde sua fundação por Hugo Chávez, em 1999. Apesar do impacto simbólico da prisão de Maduro, analistas internacionais alertam que o controle efetivo do Estado venezuelano permanece, por ora, nas mãos das Forças Armadas e dos órgãos de segurança interna, estruturas consolidadas ao longo de mais de duas décadas.
As declarações de Trump também causaram desconforto entre a oposição venezuelana. A líder María Corina Machado, que defendia uma transição baseada no resultado das urnas das eleições de 2024 – que, segundo auditorias, deram vitória ao candidato oposicionista Edmundo González –, viu a estratégia americana mudar de rumo. Aliados da oposição admitiram surpresa com o sinal de apoio à vice-presidente chavista, Delcy Rodríguez, vindo de Washington.
Cenário de Incerteza e Riscos Futuros
Nas ruas de Caracas, o ambiente era de tensão e silêncio. Apesar de convocações para protestos pró-governo, a adesão foi baixa. Houve corrida a supermercados e postos de gasolina, com relatos de racionamento informal e medo de desabastecimento.
Trump deixou claro que o petróleo é central em sua estratégia. Ele prometeu que empresas dos EUA investiriam bilhões para recuperar o setor energético venezuelano, que opera com uma fração mínima de sua capacidade devido a má gestão, corrupção e sanções. Especialistas, porém, alertam que a reconstrução exigiria anos, estabilidade política e acordos complexos.
O risco de um impasse prolongado é real. Embora a Constituição preveja que o vice-presidente assuma interinamente, a legitimidade de qualquer solução depende crucialmente do posicionamento das Forças Armadas. O pior cenário, segundo analistas, seria uma divisão interna entre militares alinhados aos EUA e setores leais ao chavismo, potencialmente levando a um conflito armado. Isso aprofundaria a instabilidade em um país do qual mais de 7 milhões de pessoas já fugiram, segundo a ONU, agravando ainda mais a crise migratória regional.