A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, emitiu um severo alerta nesta segunda-feira, 5 de agosto, sobre as possíveis consequências de uma ação militar dos Estados Unidos contra um aliado da Otan. A declaração ocorre após o presidente americano, Donald Trump, insistir publicamente em seu desejo de anexar a Groenlândia, território autônomo dinamarquês.
Declarações de Trump reacendem tensão histórica
Donald Trump voltou a expressar seu interesse pela Groenlândia no domingo, 4 de agosto, ignorando apelos das autoridades locais e do governo dinamarquês para que respeitasse a integridade territorial da ilha. A bordo do Air Force One, o presidente republicano afirmou a jornalistas que os Estados Unidos precisam da Groenlândia para garantir sua segurança nacional, questionando a capacidade da Dinamarca em fazê-lo.
"Vamos nos preocupar com a Groenlândia daqui a uns dois meses [...] Vamos falar sobre a Groenlândia em 20 dias", declarou Trump, sugerindo que o assunto permanece em sua agenda. A intervenção militar americana na Venezuela recentemente reacendeu os temores em relação a esse território rico em recursos minerais ainda inexplorados.
Resposta firme da Dinamarca e da Groenlândia
A primeira-ministra Mette Frederiksen reagiu com irritação às declarações de Trump. Em entrevista à emissora TV2, ela foi categórica: "Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da Otan, então tudo para. Inclusive a nossa Otan e a segurança implementada desde o fim da Segunda Guerra Mundial". Frederiksen assegurou que está fazendo tudo ao seu alcance para evitar que esse cenário se concretize.
Do lado groenlandês, a rejeição também foi imediata e veemente. Jens-Frederik Nielsen, homólogo de Frederiksen na Groenlândia, exclamou "Já chega!" em uma publicação no Facebook. "Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação", escreveu ele. A deputada Aaja Chemnitz, que representa a Groenlândia no Parlamento dinamarquês, pediu que a população se prepare para todos os cenários.
Uma pesquisa de janeiro de 2025, divulgada pela imprensa local, mostra que a opinião pública na ilha é majoritariamente contrária à anexação: 85% dos groenlandeses se disseram contra a ideia, enquanto apenas 6% se mostraram favoráveis.
Preocupações geopolíticas e apoio europeu
O interesse de Trump pela Groenlândia não é novo. Desde o início de seu segundo mandato, há um ano, ele não esconde seu fascínio pela ilha, localizada em uma região ártica de crescente importância geoestratégica. No mês passado, o presidente queixou-se da presença de embarcações russas e chinesas próximas à costa groenlandesa, alegação que foi rebatida como mentirosa e "muito preocupante" pela deputada Chemnitz.
O Ministério das Relações Exteriores da China instou os EUA a "pararem de usar a chamada ameaça chinesa como desculpa para buscar benefícios pessoais". Vários líderes europeus declararam apoio às posições da Dinamarca e da Groenlândia nesta segunda-feira. Anitta Hipper, porta-voz da diplomacia europeia, afirmou que a União Europeia espera que seus aliados respeitem a integridade territorial dos Estados-membros.
As tensões escalaram no fim de dezembro, quando Trump anunciou a nomeação de um enviado especial para a Groenlândia. Um sinal alarmante foi dado no sábado, 3 de agosto, quando Katie Miller, esposa de um assessor da Casa Branca, publicou no X um mapa da Groenlândia com as cores da bandeira americana e a palavra "SOON" (Em breve).
A Dinamarca, que inclui a Groenlândia e as Ilhas Faroe, é um aliado histórico dos EUA e membro fundador da Otan. O reino dinamarquês compra a maior parte de seu armamento dos americanos, o que torna a crise ainda mais delicada. Como resumiu Marianne Larsen, uma aposentada dinamarquesa entrevistada pela AFP: "Temos a Otan e penso que fará o que for preciso aqui [na Dinamarca]. Isso espero!".