Delcy Rodríguez assume interinato na Venezuela por 90 dias após captura de Maduro
Delcy Rodríguez assume como líder interina da Venezuela

Em um momento de profunda crise política, a Venezuela tem uma nova líder interina. Delcy Rodríguez, vice do deposto presidente Nicolás Maduro, assumiu oficialmente o cargo nesta segunda-feira (5), após uma ordem do Supremo Tribunal do país. A posse ocorre dois dias após a deposição e captura de Maduro pelos Estados Unidos, onde ele aguarda julgamento.

Juramento marcado por "pesar" e lealdade a Maduro

Diante dos deputados recém-empossados, Delcy Rodríguez iniciou seu discurso declarando lealdade a Nicolás Maduro, a quem se referiu como "presidente constitucional". Ela afirmou prestar o juramento "com pesar", citando o sofrimento do povo venezuelano e o que chamou de "agressão militar ilegítima" contra a nação.

"Venho com pesar, pelo sequestro de dois heróis que são reféns nos Estados Unidos", disse, em aparente referência a Maduro e a outro detido não identificado. Apesar da tristeza declarada, Rodríguez enfatizou a honra de assumir o compromisso em nome dos venezuelanos, invocando figuras históricas como Simón Bolívar e Hugo Chávez.

Mandato de 90 dias e promessas de estabilidade

O Supremo Tribunal venezuelano estabeleceu que Delcy Rodríguez permanecerá no cargo por um período de 90 dias, prazo que pode ser estendido. Durante a cerimônia, a nova líder interina fez uma série de promessas ao povo.

Ela jurou não descansar até ver a Venezuela como uma nação livre e independente, garantindo tranquilidade econômica e social. "Juro pelas bases do nosso pai libertador garantir um governo que dê felicidade social, estabilidade política e segurança política", afirmou, pedindo união ao país em suas "horas terríveis de instabilidade".

Família e chavismo no centro do poder

A cerimônia de juramento teve um forte simbolismo familiar e de lealdade ao chavismo. O ato foi conduzido pelo irmão de Delcy, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. Também esteve presente Nicolás Maduro Guerra, filho do líder deposto e deputado.

Horas antes, em seu próprio discurso de posse como parlamentar, Maduro Guerra fez um emocionado manifesto em defesa do pai. Dirigindo-se diretamente a ele, afirmou: "A você, pai, digo que criou uma família de pessoas fortes. A pátria está em boas mãos, pai, e logo vamos nos abraçar aqui na Venezuela".

Jorge Rodríguez, por sua vez, pediu que "as lágrimas se transformem em força" e assumiu a missão de trazer Maduro de volta. Ele também fez uma homenagem a Cilia Flores, esposa de Maduro e deputada ausente, colocando uma flor vermelha em seu lugar no parlamento.

Trajetória de Delcy Rodríguez no regime chavista

Delcy Rodríguez nasceu em Caracas em 18 de maio de 1969 e é formada em direito. Sua ascensão na elite do poder venezuelano foi meteórica:

  • Foi ministra da Comunicação entre 2013 e 2014.
  • Atuou como chanceler (ministra das Relações Exteriores) de 2014 a 2017.
  • Em 2017, tornou-se presidente da Assembleia Nacional Constituinte.
  • Em 2018, Maduro a nomeou vice-presidente, elogiando suas qualidades como mulher corajosa e revolucionária.
  • Desde agosto de 2024, comandava o estratégico Ministério do Petróleo, lidando com sanções internacionais.

Ela e seu irmão Jorge são peças-chave na ideologia e nas decisões do regime. A família Rodríguez tem histórico ligado à luta socialista, com o pai dos dois tendo sido um guerrilheiro marxista.

Apelo a Trump e declarações de inocência em Nova York

No domingo (4), um dia antes de assumir o interinato, Delcy Rodríguez já sinalizou sua linha de ação ao fazer um apelo público ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Ela pediu que Venezuela e Estados Unidos estabeleçam uma relação "equilibrada e respeitosa".

Enquanto isso, do outro lado do hemisfério, Nicolás Maduro declarou inocência perante um tribunal em Nova York. Em audiência, ele reafirmou que ainda se considera o presidente legítimo da Venezuela. Sua esposa, a primeira-dama Cilia Flores, também se declarou inocente perante a justiça norte-americana.

O cenário que se desenha coloca Delcy Rodríguez no comando de um país em profunda instabilidade, com a missão de gerenciar a crise interna e a pressão internacional, enquanto lidera os esforços do chavismo para reaver seu principal líder.